30 de set de 2007

Canção do Amor-Perfeito

Cecília Meireles

O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Foto: Coexistência(s) de Armando Cardoso

Mude


Edson Marques

Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente,
observando com atenção os lugares por onde você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos. Procure andar descalço
alguns dias.
Tire uma tarde inteira pra passear livremente na
praia, ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma do outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de TV, compre outros
jornais... leia outros livros.

Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores, novas delícias.

Tente o novo todo dia,
o novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito,
o novo prazer, o novo amor, a nova vida.
Tente.

Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado... outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores
Vá passear em outros lugares.

Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas,
troque de carro, compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue fora os velhos relógios,
quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.

Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros
teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se que a vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um novo emprego,
uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais
prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas.
Mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o
dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda!
Foto: VÁ AO CINEMA de João Januário

Lugares Proibidos

Helena Elis

Eu gosto do claro quando é claro que você me ama
Eu gosto do escuro no escuro com você na cama
Eu gosto do não se você diz não viver sem mim
Eu gosto de tudo, tudo que traz você aqui

Eu gosto do nada, nada que te leve para longe
Eu amo a demora sempre que o nosso beijo é longo
Adoro a pressa quando sinto sua pressa em vir me amar
Venero a saudade quando ela está pra terminar

Baby, com você já, já
Mande um buquê de rosas, rosa ou salmão
Versos e beijos e o seu nome no cartão
Me leve café na cama amanhã
Eu finjo que não esperava

Gosto de fazer amor fora de hora
Lugares proibidos com você na estrada
Adoro surpresas sem data
Chega mais cedo amor
Eu finjo que não esperava

Eu gosto da falta quando falta mais juízo em nós
E de telefone, se do outro lado é a sua voz
Adoro a pressa quando sinto sua pressa em vir me amar
Venero a saudade quando ela está pra terminar
Baby com você chegando já

Foto: discreta sensualidade de Carlos Manuel Pereira

Cais


Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar

Foto: Outro Dia na Faina... de Adriano Costa

Amor Que Fica

Alceu Valença

Fica o dito e não dito
Fica o dedo e fica o dado
Fica o feito e o desfeito
O carinho e o cuidado
Fica a chama, fica a vela
Fica a casa e fica a rua
A toalha na janela
Linda, caminhavas nua

Amor que fica é amor que fica
Fica a cama, fica o quarto
Um retrato e uma figa
Duas mãos e não mais quatro
Duas vidas divididas

Foto: Contemplação de André Boto

Amar

Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa
amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Foto: Calma de Paulo gonçalves

Lonas Estragadas

Mabel Velloso

Eu sou como um circo de lonas estragadas
Onde o palhaço já não faz mais rir
Onde o trapézio há muito está parado
porque o medo foi morar ali.

Eu sou como um circo de lonas estragadas
Em que a banda já não quer tocar
Onde as jaulas se restaram abertas
porque nem bicho se deixou ficar.

Eu sou como um circo de lonas estragadas
Sem ter mais público para aplaudir
Temendo aqueles que atiram facas
Temendo tudo que lhe quer ferir.

Eu sou como um circo de lonas estragadas
Sem alegria, sem emoção.
No entanto, existe aquela corda bamba
Onde balança o meu coração.

Foto: Silêncio De Ricardo Ribeiro

29 de set de 2007

Muito Pouco

Composição: moska
Cantada por Maria Rita, simplesmente linda!

Pronto!
Agora que voltou tudo ao normal
Talvez você consiga ser menos rei
E um pouco mais real

Esqueça!
As horas nunca andam para trás
Todo dia é dia de aprender um pouco
Do muito que a vida traz.

Mas muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais
Viver tá me deixando louca
Não sei mais do que sou capaz

Gritando pra não ficar rouca
Em guerra lutando por paz
Muito pra mim é tão pouco
E pouco eu não quero mais

Chega!
Não me condene pelo seu penar
Pesos e medidas não servem
Pra ninguém poder nos comparar

Porque eu não pertenço ao mesmo lugar
Em que você se afunda tão raso
Não dá nem pra tentar te salvar

Mas muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais
Viver tá me deixando louca
Não sei mais do que sou capaz

Gritando pra não ficar rouca
Em guerra lutando por paz
Muito pra mim é tão pouco
E pouco eu não quero ......

Veja!
a qualidade está inferior
E não é a quantidade que faz
A estrutura de um grande amor

Simplesmente!
seja o que você julgar ser o melhor
Mas lembre-se que tudo que começa com muito
Pode acabar muito pior
Foto: de João Viegas

Essa Mulher



Joyce/A.Terra

De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah. como essa santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão
Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz assim, feliz
De tardezinha essas menina se namora
Se enfeita se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia qualquer dia
Entender de ser feliz

De madrugada essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão
Depois parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.

Foto:: Prisão de luz de Pedro Gomes

Calma e Elegância

Zeca Baleiro

Enquanto o mundo pira eu paro
Pra pensar no que fazer
Se você se retira eu fico
Pensando no que vai acontecer
Calma e elegância
Não quero virar
Passageiro de ambulância
Calma e elegãncia
O amor escreve carta
Porque mora a léguas de distância
No meio da farsa eu faço
Força pra nao me arrepender
E mesmo se estou cego eu sigo
Um dia quem sabe eu venha a ver
Calma e elegância
Não quero virar
Passageiro de ambulância
Vida comizinha
Vem comer na minha mão
Vou cruzar a linha do horizonte
Bangaré
Vãos-se os dedos e os anéis
Ficam os acenos
Uns com mais e uns com menos convicção
A certeza é uma mesa
Pasta junto ao cume do vulcão
Foto: Rita 3Luís Mendonça

28 de set de 2007

Meditação

José Antônio Gama de Souza

Falo de minha incoerência
Fujo de minha indigência
Falo de minha inconsistência
Fujo de minha razão...

Perante a inocência calo-me
Diante da existência luto
Perante a insistência exalto-me
Diante do mundo, escuto!

Falo de minha hipocrisia
Fujo de minha ironia
Falo de minha rebeldia
Fujo de minha solidão...

Perante a sintonia calo-me
Diante da melancolia paro
Perante a poesia aquieto-me
Diante da paz, espero!

Falo de minha arrogância
Fujo de minha ganância
Falo de minha ignorância
Fujo de minha atração...

Perante a substância, calo-me
Diante da importância, fico
Perante a tolerância quedo-me
Diante da infância, explico!

Falo de minha experiência
Fujo de minha impotência
Falo de minha consciência
Fujo de minha aflição...

Perante a ilusão calo-me
Diante da emoção cedo
Perante a paixão sinto-me
Diante do amor, excedo!


Foto:Inclinações de Manuel Carlos (Spider)

Depois de um tempo

Veronica Shoffstall autoria creditada de maneira totalmente equivocada a shakespeare


Depois de um tempo você aprende
a sutil diferença entre segurar uma mão e acorrentar uma alma
e você aprende
que amar não significa apoiar-se
e companhia não quer sempre dizer segurança
e você começa a aprender
que beijos não são contratos
e presentes não são promessas
e você começa a aceitar suas derrotas
com sua cabeça erguida e seus olhos adiante
com a graça de mulher, não a tristeza de uma ciança
e você aprende
a construir todas as estradas hoje
porque o terreno de amanhã é
demasiado incerto para planos
e futuros têm o hábito de cair
no meio do vôo
Depois de um tempo você aprende
que até mesmo a luz do sol queima
se você a tiver demais
então você planta seu próprio jardim
e enfeita sua própria alma
ao invés de esperar que alguém lhe traga flores
você aprende que você realmente pode resistir
você realmente é forte
você realmente tem valor
e você aprende
e você aprende
com cada adeus, você aprende.


Foto: Rodrigo de João Sá Nogueira

Fresta

Fernando Pessoa

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

Foto: À espera de Sandra Alves Correia

25 de set de 2007

Saudade é solidão acompanhada

Pablo Neruda

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido

Foto: walking alone de ricardo André Alves

Mais um do Neruda

Pablo Neruda

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou....

Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.

Foto: Memórias da Pele de Elsa Mota gomes

A linha e o Linho

Gilberto Gil

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão
A sua vida o meu caminho, nosso amor
Você a linha e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore.

Foto: de elevador até ao nó de Alberto Calheiros

Sonhando demais!

Rita Mendonça

Eu queria ter você pra mim
Assim...Sem precisar dizer “eu te amo”.
Eu queria o teu cheiro, o teu paladar.
Eu queria afagar os teus pêlos,
enquanto tuas mãos repousassem em mim,
tocando o meu corpo virginal... de você.
Me dá um beijo, por favor...
Mata o meu desejo...
Mesmo por caridade.
No fundo eu não quero o teu ser.
Dá ele a eternidade...E quero a tua essência
Teu cheiro que me seduz
Em troca, te dou o nada
Só a exaustão do despertar do amor.

Foto: de Nuno Belo

Meu Amanhã



Lenine


Ela é minha delicia
O meu adorno
Janela de retorno
Uma viagem sideral

Ela é minha festa
Meu requinte
A única ouvinte
Da minha radio nacional

Ela é minha sina
O meu cinema
A tela da minha cena
A cerca do meu quintal

Minha meta, minha metade
Minha seta, minha saudade
Minha diva, meu divã
Minha manha, meu amanhã....

Ela é minha orgia
Meu quitute
Insaciável apetite
Numa ceia de natal

Ela é minha bela
Meu brinquedo
Minha certeza, meu medo
meu céu e meu mal

Ela é o meu vício
E dependência
Incansável paciência
E o desfecho final

Minha meta, minha metade
Minha seta, minha saudade
Minha diva, meu divã
Minha manha, meu amanhã.

Meu fá, minha fã
A massa e a maçã
Minha diva, meu divã
Minha manha, meu amanhã

Meu lá, minha lã
Minha paga, minha pagã
Meu velar, meu avelã
Amor em Roma, aroma de romã

O sal e o são
O que é certo, o que é sertão
Meu Tao, e meu tão...
Nau de Nassau, minha nação.


Foto: Daniela de Luis mendonça

24 de set de 2007

É preciso não esquecer nada

Cecília Meireles

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta
nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,

pois o resto não nos pertence

Foto: A Jornada de João Castela Cravo

Leveza

Cecília Meireles

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.
Foto: Não sei de quem é

O Amor É Filme

Cordel Do Fogo Encantado
Composição: Lirinha


O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca
que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem
como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica

Um belo dia a a gente acorda e hum...
Um filme passou por a gente e
parece que já se anunciou o episódio dois
É quando a gente sente o amor
se abuletar na gente tudo acabou bem,
Agora o que vem depois

O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca
que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem
como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica

É quando as emoções viram luz,
e sombras e sons, movimentos
E o mundo todo vira nós dois,
Dois corações bandidos
Enquanto uma canção de amor
persegue o sentimento
O Zoom in dá ré e sobem os créditos

O amor é filme e Deus espectador
!


Foto:Intimidades entrelaçadas de António Amen

A perfeição


Clarice Lispector

O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, A PERFEIÇÃO.
In "A Descoberta do Mundo" Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1999
Foto: Nacional de Ricardo Alberto de Sousa

23 de set de 2007

Vaidade

Djavan

Vem
pois já nasce o dia
esqueçamos tudo de ontem
o que eu não faria
para apagar
o que eu disse
de nós dois
o indivíduo exaltado
fala pelos cotovelos
acaba se descontrolando
e desse jeito
é impossível
não ferir
eu, que sempre vi você
sorrindo nos meus braços
não, a me iluminar os lados
mais esquivos
dos meus traços
feriu-me de vaidade
sua verdade dura
você disse
o que era
pra dizer
e eu falei
só loucuras
por favor
volta aí
que eu vou
fazer de tudo
para me redimir
Foto: Deusa do Fogo de Paulo Marques

Miedo

Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de ascender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como un laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara, medo de encarar
Medo de calar a boca, medo de escutar
Medo de passar a perna, medo de cair
Medo de fazer de conta, medo de dormir

Medo de se arrepender, medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá

Miedo... que da miedo del miedo que da

Foto: Adriana Oliveira

22 de set de 2007

Contradição

Cris Braun, Marcos Cunha e William Magalhães

se eu fizesse coisas que não disse
E se dissesse frases que não penso
E se quisesse o que não faço
Sem cair em contradição

Ficasse em pé ao invés de cair no chão
Quando por um querer qualquer
Me comprometesse
A cruzar a rua na contramão

Ah! Eu não vou dizer que sim
Nem vou fingir que não

Se lamentasse perdas que não tive
E se inventasse fatos que não vi
se negasse o que existe
Sem cair em contradição

Ainda assim eu não teria um minuto de silêncio
Ah! Eu não vou dizer que sim
Nem vou fingir que não

Não, eu não vou me torturar
Mantendo culpas
Os medos vão passar
Vão confirmar a mentira que contei
Pra mim


Foto: Bring me home de danie Camacho

Balada das coisas sem importância

François Villon

Conheço se há moscas no leite,
Conheço pela roupa o homem,
Conheço o tédio e o deleite,
Conheço a fartura e a fome,
Conheço a mulher pelo enfeite,
Conheço o princípio e o fim,
Conheço pela chama o azeite,
Conheço tudo, menos a mim.

Conheço o gibão pela gola,
Conheço o rico pelo anel,
Conheço o fiel pela sacola,
Conheço a monja pelo véu,
Conheço o porco pela tripa,
Conheço o irmão pelo latim,
Conheço o vinho pela pipa,
Conheço tudo, menos a mim.

Conheço a mula e o cavalo,
Conheço o carro e a carreta,
Conheço a galinha e o galo,
Conheço o sino e a sineta,
Conheço a flor pelo talo
Conheço Abel e Caim,
Conheço o pote e o gargalo,
Conheço tudo, menos a mim.

OfertórioPríncipe,
Conheço tudo em suma,
Conheço o branco e o carmim,
E a morte que o fim consuma.
Conheço tudo, menos a mim.
Foto: blazer de Jota Barriga

20 de set de 2007

Soneto do Desmantelo Azul

Carlos Pena Filho

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Foto: Eu te amo roberta Jardim

Como você escolhe seus amigos?

Loucos e Santos - Oscar Wilde

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril"

Foto:Amigos do peito! de João Castela Cravo

19 de set de 2007

Somos mesmo SEVERINOS!

João Cabral de Melo Neto
(Morte e Vida Severina)
"- O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias."

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra..."



Foto: Meninos de Rua (I) De Luigi

Somos Todos Severinos!


João Cabral de Melo Neto
(Morte e Vida Severina)



"- Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva:

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma VIDA SEVERINA."

Foto: O Escudo de Talos de Mário Sousa

18 de set de 2007

Para Viver um Grande Amor

Vinicius de Moraes

Para viver um grande amor , preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois de muitas, poxa ! é de colher... não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro seja lá como for.

Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo ", que porque é só vós quer sempre consigo para iludir o grande amor.

É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja muito apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade para viver um grande amor.

Pois quem trai seu amor por uma vanidade é desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, "il faut " , além de ser fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e judô para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas um bom sujeito; é preciso também ter muito peito peito de remador.

É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas na florista muito mais, muito mais que na modista ! para aprazer o grande amor.

Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, estrogonofes comidinhas para depois do amor.

E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor ?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto pra não morrer de amor.

É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente e esfria um pouco o amor.

Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque ( com mau bebedor nunca se arrisque! ) e ser impermeável ao diz-que-diz-que que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta "selva obscura" e desvairada não se souber achar a bem-amada para viver um grande amor.

Foto: Paragem do autocarro! de José luis Mendes

Crônica das Reticências

Mayara Machado

...Eu amo as reticências! Elas são o início, meio ou fim mais perfeito que se pode dar a uma frase. Trazem expectativa, enigma... Estão sempre lá, preenchendo o espaço daquilo que a gente não sabe, não quer ou prefere simplesmente não dizer. Ou pra mostrar que sabemos exatamente qual(is) palavra(s) caberia(m) sobre aqueles três pontinhos.

Reticências não são ponto final. Não um, mas três! Três pontos, lado a lado; três Marias! Um desfecho que sugere continuidade... ou não. A vírgula divide a frase em quantas partes o lápis (ou caneta) quiser. Os pontos encerram a mesma frase, dão a ela um término, de acordo com a idéia que se quer passar. Mas elas, as reticências, servem para tudo isso.

E como é lindo ver aqueles três pingos entre as letras que nossos olhos traduzem...

Representam o sim, o não... mas, principalmente, o talvez. Podemos usá-las para dizer que amamos uma pessoa, ou que a odiamos, ou, simplesmente, para dizer que estamos com saudades...Se eu chegasse pra você e dissesse que eu... que eu...Pronto! Lá estavam elas. E não importa o que eu ia dizer. Poderia ser uma besteira qualquer, mas você quis saber... e por causa delas!

Os populares “três pontinhos” são um recurso fabuloso da nossa escrita. Pare pra pensar: Muita gente diz que é preciso saber ler nas entrelinhas... pois eu digo que o que é preciso é saber ler nas reticências! Elas valem mais do que mil palavras... ou uma só...!

E quer saber do que mais?...Se você não quer dizer com todas as letras......Eu também não digo...

Foto: Prece de Vitor Nunes

A Hora Íntima

Vinícius de Morais

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...

Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?

Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?

Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?

Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?

Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?

Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...

Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?

Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?

Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?

Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?

Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.

Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?

Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


Foto: Envolve-me... de Margaria Araújo

17 de set de 2007

De pequenino é que se torce o pepino

Por francinaldo Rafael

Vez por outra os provérbios populares dos tempos da vovó são repetidos aqui e ali, porém, nem sempre colocados em prática. De pequenino é que se torce o pepino, me veio à mente no instante em que presenciei a seguinte cena: em um supermercado da cidade, certa mãe deixava tranqüilamente seu filho brincar com as frutas como se fossem bolas de futebol. Apenas limitava-se a ensinar ao garoto o nome de cada uma delas, ao invés de mostrá-lo que aquilo não era para brincar, além de estar danificando patrimônio alheio. Estou arrependido até agora por não ter alertado aquela mãe acerca dos limites que precisam ser colocados nas crianças. O que hoje é bonitinho aos olhos dos pais, no futuro pode virar dor de cabeça.


Conforme nos ensinam os Benfeitores Espirituais, os pais transmitem aos filhos a aparência física. Já a moral não, visto que são diferentes almas. O corpo deriva do corpo, mas o Espírito não deriva do Espírito. As aparências morais que existem entre pais e filhos se dão pelo fato de serem Espíritos que têm afinidade e foram atraídos pela semelhança nas inclinações. Isso, porém, não isenta os pais do seu compromisso. Grande influência exercem sobre os filhos além de terem como missão desenvolver o Espírito dos filhos pela educação. Constitui-lhes uma tarefa e tornar-se-ão culpados se vierem a falir no seu desempenho.


Apesar da lei das afinidades, acontece em famílias equilibradas e de boa índole nascerem filhos de natureza perversa. Não raramente, Espíritos pouco evoluídos pedem para que lhes sejam dados bons pais, na esperança de que seus conselhos os encaminhem para o bom caminho; a misericórdia divina os concede o que desejam. Os maus filhos são uma provação para os pais. Não podemos esquecer também que há os compromissos do passado que precisam ser resgatados.


Conforme o Evangelho Segundo o Espiritismo, "(...) desde o berço, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz de sua existência anterior; é a estudá-los que é preciso se aplicar; todos os males têm seu princípio no egoísmo e no orgulho: espreitai, pois, os menores sinais que revelam os germes desses vícios, e empenhai-vos em combatê-los, sem esperar que lancem raízes profundas".


Os pais precisam dar-se ao invés de dar coisas, no equivocado pensamento de ofertar facilmente o que não tiveram. Será que todos tem o devido cuidado de saber por onde andam seus adolescentes nas altas horas dos finais de semana? Seria o mais prudente, na missão de educares principais.


Cientes que de pequenino se torce o pepino, muitos pais fizeram tudo o que deviam para o adiantamento moral dos filhos. Se não obtiveram o êxito, não têm censuras a se fazer, e sua consciência pode estar tranqüila; mas ao desgosto muito natural que experimentam do insucesso dos seus esforços, Deus reserva uma imensa consolação, pela certeza que não é senão um atraso, e que lhes será dado acabar em outra existência a obra começada nesta, e que um dia o filho ingrato os recompensará com seu amor.

Fonte: O Mossoroense
Foto: O Gigante 2 de Susana Carrasco

Sempre Clarice, sempre volto a ela!

Clarice Lispector

E eis que em breve nos separaremos
E a verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia
Eu agora sei, eu sou só
Eu e minha liberdade que não sei usar
Mas, eu assumo a minha solidão
Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa
Guardo teu nome em segredo
Preciso de segredos para viver
E eis que depois de uma tarde de quem sou eu
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero
Eis que as três horas da madrugada, acordei e me encontrei
Fui ao encontro de mim, calma, alegre, plenitude sem fulminação
Simplesmente eu sou eu, e você é você
É lindo, é vasto, vai durar
Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida
Mas, por enquanto, olha pra mim e me ama
Não, tu olhas pra ti e te amas
É o que está certo
Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca
E tudo isso ganhei ao deixar de te amar
Escuta! Eu te deixo ser...Deixa-me ser!

foto: Vanessa 8 de Luís Mendonça

Paciência



Lenine e Dudu Falcão

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para(a vida não para não)

Será que é tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para(a vida não para não...a vida não para)

Foto: Bonança de Ricardo Verde Costa

Cantares do Sem Nome e de Partidas

Hilda Hilst

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.
E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Foto: Aprendizes de Pilar Mendes Dias

À Terra de Santa Cruz

Joana D'arc


Quando adormeço
e sei que o meu berço
está nesta terra,
meu peito se encerra
de feliciade, que a minha mocidade
se torna eterna.

Esse vasto céu de anil
segundo nome do Brasil,
e em louvor a santa cruz
onde se pregou Jesus,
deu a ela esse nome
o seu filho mais renome
também julgado na "cruz".


Sabemos que de certo
há nela um lado incerto,
mas, é pra ela que voltamos
quando casados estamos.
como para a mãe se volta ela abre a sua porta
e é lá, que nos deitamos.


Há coisas pra se exaltar
há outras pra se calar,
exalta-se Nestor Antunes,
cala-se os fatos impunes.
porém é meu céu
e assim como um veu
se cobre de queixumes.


Contudo, quando adormeço
e sei que meu berço
está nessa terra,
há uma quimera
de grande alegria
e como magia
me torno eterna.


Foto: Santa Cruz por Socorro Gomes
Homeagem à minha cidade que apesar de tão longe estando, não há desapego dela.

16 de set de 2007

É de estarrecer

* Música: Itamar Assumpção
* Letra: Alice Ruiz

'
É de estarrecer
estar e ser em inglês
é a mesma coisa
assim como você
pode ser e não estar
você pode estar e não ser
estar e ser
parece a mesma coisa
mas não é
de estarrecer
to be or not to be
here and now
eis a grande questão
ser passado, ser futuro, ser presente
ser humano, estar sendo,
ser amado, ser seguro, ser ausente
ser cigano, estar vivendo
to be happy, to be free
estar em você, ser em mim
to be or not to be
para Shakespeare and me
é de estarrecer
estar e ser em inglês é a mesma coisa
estar e ser
parece a mesma coisa
mas não é
de estarrecer?

Foto: Cascata do Arado de Susana Carrasco

Ou isto ou aquilo

Cecilia Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Foto: Alimentando os pombos de João Cerveira Santos

A Idade Do Céu

Jorge Drexler

Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu

Não somos o que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu

Calma
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu

Não somos mais
Que um punhado de mar
Uma piada de Deus
Ou um capricho do sol
No jardim do céu

Não damos pé
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um grão de sal
No mar do céu

Calma
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
A mesma idade
Que a idade do céu

Foto: de Antonio Tavares

OLHO DE PEIXE

Lenine

Se na cabeça do homem tem um porão
Onde moram o instinto e a repressão
(diz aí)
O que é que tem no sótão?
Permanentemente, preso ao presente
O homem na redoma de vidro
Em raros instantes
De alívio e deleite
Ele descobre o véu
Que esconde o desconhecido, o desconhecido
Como uma tomada à distância
Numa grande angular
É como se nunca tivesse existido dúvida
Existido dúvida
Evidentemente a mente é como um baú
O homem é quem decide
O que nele guardar
Mas a razão prevalece
Impõe seus limites
E ele se permite esquecer de lembrar
Esquecer de lembrar
É como se passasse a vida inteira
Eternizando a miragem
É como o capuz negro
Que cega o falcão selvagem
O falcão selvagem
Se na cabeça do homem tem um porão
Onde moram o instinto e a repressão
(diz aí)
O que é que tem no sótão?



Foto:banho de Fernando gião

A Lucidez Perigosa



Clarice Lispector


Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? sim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.
In "A Descoberta do Mundo" Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1999
Foto: Contralux de Jorge Jacinto

Maior Abandonado

Frejat/ Cazuza

Eu tô perdido
Sem pai nem mãe
Bem na porta da tua casa
Eu tô pedindo a tua
E um pouquinho do braço

Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam, me interessam

Eu tô pedindo a tua mão
Me leve para qualquer lado
Só um pouquinho de proteção
Ao maior abandonado

Teu corpo com amor ou não
Raspas e restos me interessam
Me ame como a um irmão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam

Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam, me interessam

Estou pedindo a tua mão
Me leve para qualquer lado
Só um pouquinho de proteção
Ao maior abandonado

Foto: Ao encontro de Pedro Moreira
Florbela Espanca
Saudades! Sim... talvez... e porque não?...Se o nosso
sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de
luz o coração! Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão! Que tudo isso, Amor, nos
não importe. Se ele deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como pão!
Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais
doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saudade andasse presa a mim! Saudades
Foto: A Casa do Povo de Manuela viola

O Sonho

Clarice Lispector

“Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quiser ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce,
dificuldades para fazê-la forte,
tristeza para fazê-la humana,
e esperança para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem o que fazer das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas..."

Foto:de Rui Bento Alves
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