26 de nov. de 2011

Me abastecer!


Eliane Martins

Essa amplidão que se devora à partir de mim
repete-se sem licença, sem comportas fechadas
Migra do mundo e me abastece.

Considero até o infinito nesse universo
Considero até o insano,
O incasto
O arauto re-aparecendo

É a surdez do entardecer
que me causa torpor
Me inebria
vejo uma porta entreaberta
e parto em direção.
Estou tão sensata de mim
que é capaz de me perder.

vou embora....
que a noite não tarda em me abastecer.


Foto: Não sei a autoria

17 de out. de 2011

Vanessa Leonardi


Quando criança brincava de segurar areia nas mãos.
Não dava pra segurá-la por muito tempo,
ela escorria pelos dedos, mas mesmo assim, ficavam umas pedrinhas.
Na época, eu acreditava que eram pedras preciosas.
Hoje, tenho certeza disso.

Fernanda Gaona


"Nenhuma palavra dita fará com que você me compreenda,
se verdadeiramente não souber ler o que transpareço.
Portanto, nada de deduções.
Sou um filme sem legenda,
só quem fala minha língua consegue me entender."


Foto: look_at_the_pieces_by_wolkenstein

4 de out. de 2011

Rainer Maria Rilke



Meu coração há de ser uma torre,
eu mesmo colocado fora dela; onde não há nada mais,
nem mesmo dores,
nem o indivisível,
 nem mesmo o mundo.|

Foto: seashell_tale__by_HarlequinFever

7 de set. de 2011

Um Sonho dentro de um Sonho


Edgar Alan Poe

Tome este beijo sobre a testa!
E, na despedida de você agora,
Assim, muito mais deixe-me confessar-
Você não está errado, que considerem
Que meus dias têm sido um sonho;
Ainda se a esperança voou
Em uma noite, ou em um dia,
Em uma visão, ou nenhuma,
É, portanto, a menor foi?
Tudo o que vemos ou parecemos
É só um sonho dentro de um sonho
.

Eu estou no meio do barulho
De uma terra de surf atormentado,
E eu seguro dentro de minha mão
Grãos de areia dourada
Quão poucos! Como caem
Através dos meus dedos ao fundo,
Enquanto eu choro, enquanto eu choro!
Ó Deus! eu não consigo entender
Los com um fecho apertado?
Ó Deus! eu não consigo salvar
Uma da onda impiedosa?
É tudo o que vemos ou parecemos
Mas um sonho dentro de um sonho?

Foto: wind_by_schwarzrausch-d46i2zl

5 de set. de 2011

Risque

Orlando Silva
 
 
 
Risque
Meu nome do seu caderno
Pois não suporto o inferno
Do nosso amor fracassado
 
Deixe
Que eu siga novos caminhos
Em busca de outros carinhos
Matemos nosso passado

Mas, se algum dia, talvez, a saudade apertar
Não se perturbe, afogue a saudade
Nos copos de um bar

Creia
Toda a quimera se esfuma
Como a brancura da espuma
Que se desmancha na areia

Foto: Não sei a fonte

Abigail Simmons

Não, não dormirei
Para não correr o risco
De sonhar com a tua partida
E a tristeza que dela advém
Não dormirei para sonhar com teu retorno
Não quero a alegria que fatalmente
Me tomará ao me acordar
E se tornará melancolia
Pois na plataforma
Não haverá
Ninguém



Foto: and_for_how_long_after__by_two_tickets-d36zlxz

28 de ago. de 2011

EU, etiqueta




Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

Foto: Não sei o autor (encontrei no google)

14 de ago. de 2011

Mia Couto


"A gente precisa do viver para descansar dos sonhos."


Foto: Colorfull Meara by pepapigo

De quando desisti e caí na vida


Ana Elisa Ribeiro


Não quero mais aguardá-lo.
Guardá-lo com honras de único rei
Não vou mais dizer loas
Mandar notas
Não quero fazê-lo verso
Este é o último
E primeiro.
Príncipe imaginário
Não quero vivê-lo
Imagem: http://melllove.tumblr.com/page/9

10 de ago. de 2011

Alexandre Chase




"Para ficar jovem é preciso mudar”


Foto; __by_mamabakasi-d3j5pdt

Cazuza




"Se você achar que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados...
Porque o tempo, o tempo não pára!!!"

Foto: __by_jzah-d42gbei

2 de ago. de 2011

Clarice Lispector





Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado:
pensava que, somando as compreensões, eu amava.
Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.
Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.



Foto: esmeralda_in_cage_by_floratasartir-d42e0so

Gilberto Gil


"Deus me livre de ter medo agora
Depois que eu já me joguei no mundo"


Foto: over_there_by_marionb_photos-d42gbyz


George Bernard Shaw


‎"Cuidado com gente que não devolve os ataques que você lhe fez:
nem ele perdoa, nem permite que você se perdoe."


Foto: secret_by_gewoonanne-d42dfwa

Cazuza



"Você está vivo.
Esse é o seu espetáculo.
Só quem se mostra se encontra.
Por mais que se perca no caminho."


Foto: De Jose Luis Mendes

1 de ago. de 2011

Caio Fernando Abreu


‎"Não choro minhas perdas, nem temo a inveja e o olho gordo que me rodeiam.
Sou de Deus, quem não é que se cuide!'



Foto: alice_in_by_alkazz-d42dmrw

16 de jul. de 2011

Machado de Assis





"Eu gosto de catar o mínimo e o escondido.
Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu,
com a curiosidade estreita e aguda
que descobre o encoberto".


Foto: A Chave do Dinheiro de Luís Mateus

7 de jul. de 2011

Deixa-me amar-te

 

Lya Luft

Deixa-me amar-te com ternura, tanto
que nossas solidões se unam
e cada um falando em sua margem
possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
cavalgando mares impossíveis
em frágeis barcos e insuficientes velas
pois disso se fará a nossa voz.

Deixa-me amar-te sem receio, pois
a solidão é um campo muito vasto
que não se deve atravessar a sós.
 
 
Foto: Breathing Fog  by Lightsofthenights




Anoitecer

Florbela Espanca

 
A luz desmaia num fulgor de aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bençãos de amor pra toda a gente!
E a minha alma, sombria e penitente,
Soluça no infinito desta hora...

Horas tristes que vão ao meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...
 
 

Foto: jul_k3_by_anticuus

6 de jul. de 2011

Amarra o Teu Arado a uma Estrela


Gilberto Gil


Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces e polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor


Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus


2 de jul. de 2011

PELO SABOR DO GESTO



As-tu déjà aimé? | Alex Beaupain
versão | Zélia Duncan


Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?
Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?
Na casca a vida vem tão doce e tão modesta
Quem se perdeu de si?
Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto
Confesso que perdi, me diz quantos se vão?
Paixões passam por mim, amores que têm pressa
Vão se perder em si

Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias
Seus beijos de mentira não chegam muito longe
Paixões correm por mim, são só suaves febres
Seus beijos mais gentis derretem pela neve
Pra que tocar o amor, pelo sabor do gesto?
Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?
Amarga essa canção, os dias e o resto
Se perde como um grão

Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto
Te empresto da maçã vai junto o coração
Esquece o que eu não fiz
Te sirvo o bom da festa
De um jeito mais feliz

Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor
Carinho sem querer me cansa e me dói

Se o amor vem pra ficar faz tudo mais bonito
Me basta ter na mão e o corpo tem razão



Foto: Espelho meu ... de Sandra Marques

20 de jun. de 2011

Caio Fernando Abreu



“Num deserto de almas também desertas,
uma alma especial reconhece
de imediato a outra.”





FOTO: Quem me acompanhará ao castelo de Emília Duarte

17 de jun. de 2011

Lábios que não se abrem, lábios


Henriqueta Lisboa,


Lábios que não se abrem, lábios
com seu segredo
calado

Segredo no ermo da noite
resiste à rosa dos ventos
calado.

Flauta sem a vibração
do sopro.
Luar e espelho, frente a frente,
em calada
vigília.

Fria espada unida
ao corpo.

Resto de lágrimas sobre
lábios
calados.

Borboleta da morte
em sorvo
pousada à flor dos lábios
calados
calados.



 
Publicado: A Face Lívida (1945)
Foto: Secret_angel_by_salgada

14 de jun. de 2011

Dylan Thomas


Dylan Thomas (Tradução de Mário Faustino)



Se em meu ofício, ou arte severa,
Vou labutando, na quietude
Da noite, enquanto, à luz cantante
De encapelada lua jazem
Tantos amantes que entre os braços
As próprias dores vão estreitando
Não é por pão, nem por ambição,
Nem para em palcos de marfim
Pavonear-me, trocando encantos,
Mas pelo simples salário pago
Pelo secreto coração deles.

Foto; 'O pastor' de Ana Filipa Scarpa

4 de jun. de 2011

Felicidade


Abgard Renault


Felicidade - o título tão comprido deste poema tão pequeno!
Felicidade - substantivo comum, feminino, singular, polissilábico.
Tão polissilábico. Tão singular. Tão feminino. E tão pouco comum.
Substantivo complicado, metafísico,
que cabe todo
na beleza clara de alguém que eu sei
e no sorriso sem dentes de meu filho.


Foto: Arquivo Pessoal

2 de jun. de 2011

Ela disse assim (A teus pés)

 
Cordel do Fogo Encantado
 
 
Ela disse assim
É porque é É porque é
Não há desespero em vão
 
Se ela quer voar
É porque tem asas
É porque tem asas
Não não não
Quando a gente voa
Distante e só
Tão distante e só
O sol não vem e a luz que cai
Nunca mais voltou
Nunca mais voltou
Não não não


Foto: Não sei de quem é a autoria da foto

24 de mai. de 2011


Fernanda Mello


"Um brinde as nossas obsessões,
e aos momentos divertidos
que elas nos proporcionam."

23 de mai. de 2011

O último poema


Manuel Bandeira

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.



Foto: la_poesia_perfetta_by_DaRk1MagdaLena

21 de mai. de 2011

Vai Saber?



Adriana Calcanhotto

Não vá pensando que determinou
Sobre o que só o amor pode saber
Só porque disse que não me quer
Não quer dizer que não vá querer
Pois tudo o que se sabe do amor
É que ele gosta muito de mudar
E pode aparecer onde ninguém ousaria supor

Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha do que duvidar
Pensando bem, pode mesmo
Chegar a se arrepender
E pode ser então que seja tarde demais
Vai saber?



Foto: despedida_by_anouka

17 de mai. de 2011

Machado de Assis




Machado de Assis em (Esaú e Jacó)




"O tempo é um tecido invisível em
que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo.
Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste
mundo, e acaso do outro."




Foto: r_e_d_by_jausmiina-d3gh2dk

16 de mai. de 2011

A dor que a minha alma sente



A dor que a minha alma sente...
Não a saiba toda a gente...
Que estranho caso de amor...
Que desejado tormento...

Que venha a ser avarento,
Das dores da minha dor!

Por me não tratar pior,
Se sabe ou se sente, não a digo a toda a gente!

Minha dor e a causa dela.
A ninguém ouso falar.

Que seria aventurar,
A perder-me ou perde-la,
Pois só em padece-la a minha alma está contente.

Viva no peito escondida... Dentro da alma sepultada...
Ou me mate... Ou me dê vida...
Ou viva eu triste ou contente,
Não quero que saiba a gente!

Porque Eu Sei Que É Amor


Sérgio Britto e Paulo Miklos (Titãs)

Porque eu sei que é amor
Eu não peço nada em troca
Porque eu sei que é amor
Eu não peço nenhuma prova

Mesmo que você não esteja aqui
O amor está aqui
Agora
Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir
Embora

Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
Eu peço somente
O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor
Sei que cada palavra importa
Porque eu sei que é amor
Sei que só há uma resposta

Mesmo sem porquê eu te trago aqui
O amor está aqui
Comigo
Mesmo sem porquê eu te levo assim
O amor está em mim
Mais vivo


Ao som de (Porque eu sei que é amor)
Foto; Holding_Love_by_alejandro1717

Sonetos de Camões


Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n’alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.




Foto: In my place  by wszystkojedno









14 de mai. de 2011

Qual é a cor do amor?


Cazuza - 1989




Primeiro é o beijo
Quente, procurado
A língua procurando a outra
E vendo se a boca combina
Se combina o beijo
Meio caminho andado
Depois é a pele
Se a textura vale
O pelo com pelo
Ou o pelo com o seu pelo
Ou os pelos com meu pelo
Ou o medo
Depois o cheiro
Um procura no outro
O cheiro de colônia ou
O cheiro de prazer
E os dois se embriagam
Ou vão até o banheiro
Depois a cor
O amor tem cor?
Cada amor tem uma cor
Cada beijo tem uma cor
Cor de caramelo doce
Cor de madrugada fria





Foto: kiss_by_salsabegood





10 de mai. de 2011

O laço de fita




Castro Alves


Não sabes, criança? ´Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.

Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.
Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.


Foto: Não se de quem é a autoria da foto.

Fabieni Barcelos


"O dia que eu for conformada com o mundo que vivo
com certeza neste dia meu coração parou,
sangue não corre mais em minhas veias
e preciso de alguém para me carregar."




Foto: smoke_snake_by_kirstin_xo-d3gh1qt

30 de abr. de 2011

Alcoólicas


Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.


Foto: 'O Fascínio da Luz' de Artur Ferrão
ao som de Lenine Lenine - Paciência

Quatro Horizontes




Lenine / Pedro Luís



É QUE NO FIM DA ESTRADA
EU VEJO QUATRO HORIZONTES
Há MAR
Há MONTES DE HISTóRIAS
MISTéRIOS
SEDES DISTINTAS
AQUILO QUE TE SACIA
PRA MIM é UM TRêS POR QUATRO
O QUE RETRATA MEU MEDO
PRA VOCê NãO TEM SEGREDO
O QUE PRA TI é DEGREDO
PRO OUTRO é PORTO SEGURO
SEU FURO DE REPORTAGEM
PRA NóS é MERA BOBAGEM
VIAGEM SEM PARADEIRO
NOS FAZ TãO PERTO E DISTANTES
DEPOIS DA MINHA CHEGADA
SUA PARTIDA, SEU ANTES

ESTRADA DE QUATRO SENTIDOS
ENCRUZILHADA DE DESTINOS
QUANTO MAIS FLOR MAIS MULHER
QUANTO MAIS VELHO MAIS MENINO



Foto: blue_sky_by_prollei-d2xmj7t

28 de abr. de 2011

PEQUENO POEMA DIDÁTICO

Mário Quintana



O temo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre…
Todas as horas são horas extremas!




Foto: _time_is_running_out__by_isakichan-d2xmmj1




31 de mar. de 2011

Segue o teu destino



Ricardo Reis

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.



Foto: (não sei quem é o auto)
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