4 de set de 2016

Poema em Linha Reta


(Fernando Pessoa)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Trecho de Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa)

29 de mai de 2015

Marla de Queiroz



Marla de Queiroz 

"Não nasci para ser adequado, 
coerente, 
adorável. 
Nasci para ser gente. 
Para sentir de verdade.
Tenho vocação para transparências 

e não preciso ser interessante o tempo todo.
Por isso, não espere que eu supere as suas expectativas:

às vezes, nem eu supero as minhas."

20 de abr de 2015

Cáh Morandi



nunca quero saciar,
nem transbordar,
nem cansar,
nem encontrar sossego:
quero em ti, sempre encontrar
uma falta, um vazio de gestos,
uma palavra perdida, uma ausência
para que eu nunca seja
plena e completa
para que eu nunca
me encontre suficiente

que eu te ame mais
do que te ame:
que haja em mim
a incontrolável
necessidade.

Foto: only_silence_by_dorguska

13 de nov de 2014

O Apanhador de Desperdícios




Manoel de Barros (Um poeta nunca morre)

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios
.

21 de set de 2014

A Paz



Gilberto Gil/João Donato

A paz
Invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais
A paz fez o mar da revolução
Invadir meu destino
A paz como aquela grande explosão
De uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz
Eu pensei em mim,
Eu pensei em ti,
Eu chorei por nós
Que contradição, só a guerra faz nosso amor em paz

Eu vim, vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos ais.
A paz...
Foto: Marcos Antunes

Penso e Passo



Quando penso que uma palavra
Pode mudar tudo
Não fico mudo
Mudo

Quando penso que um passo
Descobre o mundo
Não paro passo
Passo

E assim que passo e mudo
Um novo mundo nasce
Na palavra que penso

Foto: Wrong_side_of_the_tracks_by_Two_Tickets

14 de jul de 2014

Nadine Gordimer




"Eu não consigo viver com alguém
 que não consiga viver sem mim"



13 de mai de 2014

O Amor não Tem nada que Ver com a Idade

José Saramago

"Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor.

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério."



Foto: Não sei a autoria 

7 de mai de 2014

Elis Regina




Eu sou do contra.
Não vão me dirigir não. 
Decifra-me ou devoro-te? 
Não vai me devorar nem eu me decifrar, nunca. 
Eu sou a esfinge, e daí? 




Foto: Key_to_success_by_Two_Tickets

25 de abr de 2014

Meu Sol

Vanguart

Minha alma
Sabe que viver é se entregar

Sabendo que ninguém pode julgar
Se teve que olhar pra trás ou não
Talvez
Se a vida me trouxer o que eu pedi
Te encontro e faço tudo o que quiser
Te dizendo "O Sol renasce amanhã"
A vida é tão mais vida de manhã
Quando vejo você
Saiba você é
Meu Sol
Ela
Tem entrelinhas fáceis de rimar
Me encosta o colo e fica onde quiser
E me molha como um rio que lava o chão
Só pra você
Eu tenho os olhos e meu coração
Espero o teu sorriso e as tuas mãos
Não esquece, o Sol renasce amanhã
A vida, enfim vivida de manhã
Quando tenho você
Sempre você é
Meu Sol
Meu Sol
Saiba você é
Meu Sol
Sempre você é
Meu Sol
Eu já
Me preparei demais
E declaro, agora é a hora
O amor profundo, o amor que salva
Vem depressa, não demora

Meu Sol
Saiba você é
Meu Sol
Sempre você é
Meu Sol

Foto · 'A tarde cai, em cores se desfaz', de Joice Lamego

14 de mar de 2014

Ana Jácomo



O amor desbasta o ego. Enxuga excessos. Delata as mínguas. Transforma as mágoas. Destrona arrogâncias e idealizações. Desmancha certezas e tece oportunidades. Bagunça a autoimagem todinha, piedade zero, culpa nenhuma. O amor percorre territórios devastados da alma com a calma necessária para reflorestar um a um. Dissolve neblinas. Revela o sol. Destece máscaras. Reinaugura a humildade. Faz ventar. Faz chorar. Faz sorrir. Faz tempestade um monte de vezes pra dizer também céu azul um monte de vezes depois.”


Foto: José Vaz Meneses
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