30 de Junho de 2009

Poema Erótico

Manuel Bandeira

Teu corpo claro e perfeito,
Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio,
é como um véu de noivado...
Teu corpo é dourado...

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume
Teu corpo é a brasa do lume

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
E puro como nas fontes

A água clara que cereja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia da água e da chama...

A todo o momento o vejo...
Teu corpo...a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Foto: 1 de Ricardo Costa

Elegia ao primeiro amigo, fragmentos

Vinícius de Moraes, “Cinco Elegias” (1943)

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de
adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas
delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me
delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo. Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.
(...)

Fonte: não sei de quem é foto

Manoel de Barros

Manoel de Barros

Deus disse: vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.


Fotos: Thoughts of the things yet to be de Wiseacre


4 de Maio de 2009

Para poder morrer

Hilda Hilst
Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.

Porque assim é preciso

Para que tu vivas.


Foto: Ribeira negra de Pedro Moreira

3 de Março de 2009

Vieste

Ivan Lins/Vitor Martins

Vieste na hora exata com ares de festa
E luas de prata
Vieste com encantos,
Vieste com beijos silvestres
Colhidos pra mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas
Plantadas em mim...
Vieste com a cara e a coragem,
Com malas, viagens,
Pra dentro de mim...
Vieste a hora e a tempo,
Soltando meus barcos
E velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro
Velando por mim...
Vieste de olhos fechados,
Num dia marcado,
Sagrado pra mim
Vieste com a cara e a coragem,
Com malas, viagens,
Pra dentro de mim, meu amor...

Foto: momentos outonais ….de Pedro Casquilho



17 de Fevereiro de 2009

Ternura


Menotti del Picchia(1892-1988)

Se eu te dissesse o meu amor...
(Olha o mar como é vasto! Ouve o mar como geme!)

Se eu te dissesse o meu amor!
(É meu braço que treme ou teu braço que treme?)

Se eu te dissesse o meu amor?
(Olha como o céu esplende! Olha como o sol aquece!)

Se eu te dissesse o meu amor...

Mas teu corpo estremece... A minha alma estremece
como se eu te dissesse
o meu amor...

Foto: Olhares...! de Espirito da Luz

Simplesmente amor


délia Prado

Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero
Por causa dele falo palavras como lanças

Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero
Por causa dele podem entalhar-me:
Sou de pedra sabão.

Alegre ou triste
Amor é a coisa que mais quero.

Foto: Não sei de quem é a autoria

26 de Janeiro de 2009

Soneto do impossível

Abgar Renault

Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta
das sílabas que beijam tuas asas,
nem a curva em que morre a ardente seta,
nem tanta eternidade em horas rasas.

Não medirás a bêbeda corola
que abriste no final do meu sorriso,
nem tocarás o mel que canta e rola
na insônia sem estradas onde piso.

Não saberás o céu construído a fogo,
que tua jovem chave cerra e empana,
nem os braços de espuma em que me afogo.

Não verão os teu olhos quotidiana
a minha morte de homem embebida
no flanco de ouro e luar da tua vida.



Foto: 001 de Bubbles

Negro Amor


Composição: Bob Dylan / Versão Péricles Cavalcante e Caetano Veloso


Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol
Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada negro amor

A estrada é pra você e o jogo é a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha maluquice em seu lençol
Sob seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada negro amor
E não tem mais nada negro amor

Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores? e agora?
Até o tapete sem você voou
E não tem mais nada negro amor
E não tem mais nada
Negro amor

As pedras do caminho deixe para trás
Esqueça os mortos eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua
Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada negro amor

Os Argonautas




Caetano Veloso (1978)

O barco
meu coração não aguenta
tanta tormenta, alegria
meu coração não contenta
o dia
o marco
meu coração
o porto
não


navegar é preciso
viver
não é preciso


o barco
noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso
o arco
da madrugada
o porto
nada

navegar é preciso
viver
não é preciso

o barco
o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue
o charco
barulho lento
o porto
silêncio

navegar é preciso
viver
não é preciso


Foto: Aguarela no sado...de Jose Canelas

Todo o sentimento

Cristóvão Bastos - Chico Buarque/1987


Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez


Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu

Foto:Se todos pudessemos andar de mãos dadas... de Landa




20 de Janeiro de 2009

Ausência


Nuno Júdice, in Pedro Lembrando Inês


Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

R E S Í D U O S

(Carlos Drummond de Andrade, em “Rosa do Povo”,Ed. Aquilar, 1964, “Obra Completa”, pág. 163)

“De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
Ficou um pouco.


Ficou um pouco de luz
Captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
De ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pé
De que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço vazio de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
No queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio
Um pouco ficou, um pouco
Nos muros zangados,
Nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
No pires de porcelana,
Dragão partido, flor branca,
De ruga na vossa testa,
Retrato.
Se de tudo fica um pouco,
Mas por que não ficaria
Um pouco de mim? No trem
Que leva ao norte, no barco,
Nos anúncios de jornal,
Um pouco de mim em Londres,
Um pouco de mim algures?
Na consoante?
No poço?

Um pouco fica oscilando
Na embocadura dos rios
E os peixes não o evitam,
Um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco,
Não muito: de uma torneira
Pinga esta gota absurda,
Meio sal e meio álcool,
Salta esta perna de rã,
Este vidro de relógio
Partido em mil esperanças,
Este pescoço de cisne,
Este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco;
De mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
De tudo ficou um pouco;
Vento nas orelhas minhas,
Simplório arroto, gemido
De víscera inconformada,
E minúsculos artefatos:
Campânula, alvéolo, cápsula
De revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
E abafa
O insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
E sob as ondas ritmadas
E sob as nuvens e os ventos
E sob as pontes e sob os túneis
E sob as labaredas e sob o sarcasmo
E sob a gosma e sob o vômito
E sob o soluço, o cárcere, o esquecido
E sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
E sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
E sob tu mesmo e sob teus pés já duros
E sob os gonzos da família e da classe,
Fica sempre um pouco de tudo.”



Foto: Unclaimed (?)

Leve do livro Poemas Completos de Alberto Caeiro


Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)


" Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leva passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
em procuro sabê-lo."


Foto: Flores(não sei de quem é a autoria)

18 de Janeiro de 2009

Case-se comigo

Liminha & Vanessa da Mata

Case-se comigo
Antes que amanheça
Antes que não pareça tão bom pedido
Antes que eu padeça
Case comigo
Quero dizer pra sempre
Que eu te mereço
Que eu me pareço
Com o seu estilo
E existe um forte pressentimento dizendo
Que eu sem você é como você sem mim
Antes que amanheça, que seja sem fim
Antes que eu acorde e seja um pouco mais assim
Meu príncipe, meu hóspede, meu homem, meu marido
Meu príncipe, meu hóspede, meu marido

Foto: véus e casamentos de Paulo Cesar

Lendo Fernando Pessoa...



Fernando Pessoa


"Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria,
Só porque foi e voou,
E hoje já é outro dia."



Foto: Autumn walk de Francisco Veiga




A Sombra de um Jatoba

Toquinho

Raios de sol na varanda
verde cobrindo o jardim
poder sentir a vida espreguiçar
com o cheiro da madrugada
dama-da-noite, jasmim
olhar no céu estrelas pra contar

Ter meus amigos comigo
quem amo me amando, sim
longe do amor de quem nos finge amar
Ver na manhã de um domingo,
meu filho sorrir pra mim
depois dormir à sombra de um jatobá

Poucas coisas valem a pena
o importante é ter prazer
Longe de mim a inveja e a maldade escondidas na vida
Hoje estamos nós em cena e não há tempo a perder
pois tudo acaba mesmo sempre em despedida


Foto: Friends de Alexandre Bravo


Graciliano Ramos em Memórias do cárcere

"(...) Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de idéias obliteradas."


Foto: Love in blue de gonçalo Franco

17 de Janeiro de 2009

Overdose


Alice Ruiz e Alzira Espíndola


Já notou que eu te amo
ou você pensa
que toda vez que eu ligo
é por engano?


já sacou que é meu vício
minha droga
meu barato
ou vou ter que curtir a rebordosa
em algum hospício?


pra me deixar normal
só uma overdose de você
pra me pirar legal
só uma dose dupla desse mal



Foto: Hide'n' Seek de Graçaa Loureiro

Clarice Lispector


Clarice Lispector, "Água Viva"


"Para me refazer e te refazer volto a meu estado de jardim e sombra, fresca realidade, mal existo e se existo é com delicado cuidado. Em redor da sombra faz calor de suor abundante. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando. Estou cheia de acácias balançando amarelas, e eu que mal e mal comecei a minha jornada, começo-a com um senso de tragédia, adivinhando para que oceano perdido vão os meus passos de vida. E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza. Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca."

Foto: Framed de J. P. Sousa

15 de Janeiro de 2009

Mário Quintana


(Mário Quintana - 80 Anos de Poesia, 1986)

Fere de leve a frase... E esquece... Nada

Convém que se repita...

Só em linguagem amorosa agrada

A mesma coisa CEM MIL VEZES dita.’’


Foto: Unidos pelo sentimento de Marta Ferreira

14 de Janeiro de 2009

Soneto XLIV - Sábras que no te amo y que te amo

Pablo Neruda (1904-2004)


Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo e
por isso te amo quando te amo



Texto do livro "CIEN SONETOS DE AMOR "Soneto XLIV "Sábras que no te amo y que te amo"de Pablo

Foto: SweetDreams de Graça Loureiro

9 de Janeiro de 2009

A Ana


Ana Cañas / Alexandre Fontanetti


A Ana disse ontem
A Ana ficou triste

A Ana também leu
A Ana não existe

É a Ana insiste
A Ana não consegue
A Ana inventou
Ela também merece

A Ana é azeda
Mas é doce quando é doce
A Ana é azeda
Mas muito doce quando é doce

A Ana nada sabe
A Ana sempre canta
A Ana me enrola
A Ana me encanta

A Ana se pintou
A Ana não limpou
A Ana que escreveu
A Ana que esqueceu

Foi a Ana que fez
Foi a Ana que foi
Foi a Ana em fá
Foi a Ana, foi

A Ana ama
A Ana odeia
A Ana sonha
A Ana canta

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

"Comovo-me em excesso,
por natureza e por ofício.
Acho MEDONHO alguém viver sem paixões."

Foto: Olhos vendados (naao sei de quem e a autoria da foto)




Mário Quintana

Mário Quintana

"Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava
."


Foto: Carinho (Nao sei a autoria)

Benoîte Groult,no livro “Um toque na estrela”

Benoîte Groult,no livro “Um toque na estrela”

“No início,cada indivíduo tinha sua cota de destino. A fatalidade, como se diria (…). Triste perspectiva para mim, que amo o improviso e as fendas da existência por onde se infiltram os milagres. É por isso que adoro embaralhar as cartas. Acender a fagulha de um olhar para fazer nascer o amor onde não se esperava”

Foto: waiting de youngdoo

Fernanda Young

Fernanda Young

"...Olha no espelho,
recupera o fio da
Meada
Ela sabe quem é. Ela não é Yeats,
não é Rike,
Neruda,
Blake,
Drummond.
Ela é mulher,
poeta que volta no tempo enquanto dorme,
revendo o amor que acreditou..."

Foto: Fanfan de i am who i am


2 de Dezembro de 2008

Palavras de Ariano


"O que encanta é a recriação"

"Me chamem de doido que eu prefiro"
"Eu sou devoto do sonho"


"Suassuna com ç é nome de cobra,
Suassuna com SS é nome de onça"


"Como sou escritor me acho no direito de mentir"

As palavras iniciais de Ariano ao admirar-se com a uma grande platéia:
"Isso não é uma palestra e sim um comício"
Foto retirada do Orkut de Lanaíza

30 de Novembro de 2008

Para ser grande, sê inteiro


Fernando Pessoa (Ricardo Reis, Odes 14-2-1933)


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Foto: After the workout de Lenny

A Seta e o Alvo



Paulinho Moska e Nilo Romero



Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.
Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"
E você só acredita quando eu juro.
Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.
Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade.
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade.
É a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa não te espera!
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?
Sempre a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?


Foto: Why do people feel alone. . . de Dr. Bahraini

21 de Novembro de 2008

Formas


Adélia Prado


De um único modo se pode dizer a alguém:
'não esqueço você'.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido
'não esqueço você'.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito
e a morte é amor.


Foto: mh2 de Concheven

Balada da Irremediável Tristeza


Abgar Renault


Eu hoje estou inabitável...
Não sei por quê,
levantei com o pé esquerdo:
o meu primeiro cigarro amargou
como uma colherada de fel;
a tristeza de vários corações bem tristes
veio, sem quê, nem por quê,
encher meu coração vazio... vazio...

Eu hoje estou inabitável...
A vida está doendo... doendo...
A vida está toda atrapalhada...
Estou sozinho numa estrada
fazendo a pé um raid impossível.
Ah! se eu pudesse me embebedar
e cambalear... cambalear...
cair, e acordar desta tristeza
que ninguém, ninguém sabe...
Todo mundo vai rir destes meus versos,
mas jurarei por Deus, se for preciso:
eu hoje estou inabitável...
Foto: 365 tiny smallde ukimmeru

como te amo?


Elizabeth Barrett Browning


Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido – quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.

Foto: butterfly, dave matthews band de Auro

14 de Novembro de 2008

Como dizia o poeta


(Vinícius de Moraes, "Como dizia o poeta" (1971, )


Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não



Foto: ...na areia da praia... de Alicina

Sempre Clarice

Clarice Lispector

Eu sou à esquerda de quem entra.
E estremece em mim o mundo.(...)
Sou caleidoscópica:
fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro.
Sou um coração batendo no mundo.


Foto:A Laranja Sentada de António Macedo

13 de Novembro de 2008

Biografia do Orvalho


Manoel de Barros


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou
- eu não aceito.
Não agüento ser apenas UM
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.



Manoel de Barros, “Retrato do Artista Quando Coisa” (1998)

Foto: My vendetta de Eleutera

10 de Novembro de 2008

Manoel de Barros



Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrava um título para os seus poemas. Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do Mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)
As antíteses congraçam.



Foto: De Pedro Miguel Costa



25 de Outubro de 2008

Maquiável

(Nicolau Maquiavel)

"Não se pode chamar de "valor" assassinar seus cidadãos, trair seus amigos, faltar a palavra dada, ser desapiedado, não ter religião. Essas atitudes podem levar à conquista de um império, mas não à glória"


Foto: Man on fire! de Pedro Ferreira

24 de Outubro de 2008

De Clarice


Clarice Linspector

"Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
depende de

QUANDO

e

COMO
você me vê passar."

Foto: Thais Fernanda 1 de Paulo Marques

PEDAÇOS DE MIM


Martha Medeiros

Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos

Sou feito de
Choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências
que não vivi
momentos que já esqueci

Eu sou
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante


Tive noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não-prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir, para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivendo e aprendendo.


Foto: de Jorge Soares


19 de Outubro de 2008

É muito claro

Manoel Ricardo de Lima
É muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama


Foto: Tempo para ter tempo. de Pedro Tavares

Ademir Antonio Baccado livro “Pandorgas ao Vento”



Ademir Antonio Baccado livro “Pandorgas ao Vento”


Invento a paixão

do meu jeito

irresponsável

e insensata

com todos os riscos

invento a minha paixão

com todas as loucuras

que passam pela cabeça

do mais tolo dos apaixonados

e me entrego a ela

de corpo e alma

só assim vale a pena

te amar!


Foto: Tu Gitana de João Castela Cravo

Tempo de solidão

Ademir Antonio Bacca

Tempo
que não passa
novelo
que não se desembaraça
vela
que queima devagar
que não desata
lembrança
que não se perde na fumaça.
noite
que se arrasta.

Foto: ...é Agora de Susana Ferreira

Clarice sempre!

Clarice Lispector

...Que minha solidão me sirva de companhia.
Que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo."
Foto: Fragmentos de Históriade Paulo Penicheiro

15 de Outubro de 2008

Um instante

Ferreira Gullar


Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente


Foto: respirar (Não sei a autoria)

28 de Setembro de 2008

BENDITAS

Mart’nália - Zélia Duncan
Benditas coisas que eu não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Os amores que eu nunca encontrei
Benditas coisas que não sejam benditas


A vida é curta
Mas enquanto dura
Posso durante um minuto ou mais
Te beijar pra sempre o amor não mente, não
mente jamais
E desconhece do relógio o velho futuro
O tempo escorre num piscar de olhos
E dura muito além dos nossos sonhos mais puros
Bom é não saber o quanto a vida dura
Ou se estarei aqui na primavera futura
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa nenhuma


Foto: delirio não sei a autoria

27 de Setembro de 2008

Os Espaços Vazios

Cáh Morandi
Nunca soube o que fazer
com os espaços que ficam
depois que alguém vai embora
uma dúvida insiste
e de tanto, o meu tentar desiste
de trocar a ausência
por qualquer coisa que fira menos:
nada para repor
nada para suprir
nada que realmente comportasse
o encanto de algo que ficou
para trás


Foto: Espiral de Pedro Olivença

Atrevimento

Cris de Souza e Cáh Morandi

Não acredito em meus medos
Nem crio mais pesadelos
Que me fazem perder

Não acredito em meus debates
Nem crio mais impasses
Que me fazem reter

Sou inteira em cada envolvimento
Saltando buracos ao relento
Com vínculo ao clarear

Sou certeira em cada movimento
Cortando as curvas do vento
Com ímpeto ao voar



Foto:let's stay together de Paulo Franco


23 de Setembro de 2008

Cáh Morandi



Aconselho-te
Me olhares mais nos olhos
Porque tua boca é muda
E teu olhar fala, fala, fala...
Por ele exala
O que tua voz cala.



Foto:Penetrating eyes de João Alves

Por Ti Deixei

Renata Pallottini

Por ti deixei, do meu rebanho lento
a alva timidez; da minha casa
o fogo acolhedor tornado brasa
e a brasa morta transformada em pranto.

Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,
da boca de meu pai restou-me a frase
e estes meus olhos são cisternas rasas
onde à tardinha vem beber o vento.

Ponho a teus pés o meu desejo triste
que se renova numa força eterna,
e te ofereço uma fraqueza a mais;

pedaço do meu tronco que partiste,
carne, que foste um pouco de meu cerne!
À minha própria carne tornarás.


Foto: Face de Alexandr Bravo

Antes de Amarte


Pablo Neruda

Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morro e mundo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,

tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.


Foto: Neblina da montanha - José Araúujo

Mundo Grande

Carlos Drummond de Andrade)

"Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao
suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.


Foto: De Jordis

14 de Setembro de 2008

Coisa Tua


Alice Ruiz

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa tua.


Foto: Temáticas - Sinais e símbolos de luiza louro

Alice Ruiz

Alice Ruiz


Que o breve
Seja de um longo pensar
Que o longo
Seja de um curto sentir
Que tudo seja leve
De tal forma
Que o tempo nunca leve!


Foto: No Centro do Nada de guilherme Limas




Sonhar

Helena Kolody

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

Foto: Infinito de David Ligeiro




3 de Setembro de 2008

Astolphe de Custine

Astolphe de Custine

"Diz-se que o egoísmo não sabe amar, mas também não sabe deixar-se amar"

"Quantos homens consideramos felizes apenas porque os vemos passar "

"Temer não é desdenhar; não se despreza aquilo que se teme "

"Quando estamos decididos a ver as nações como queremos, não precisamos de sair de casa "

Foto: Indo para a Missa... de marisa Caetano

L\ e essentiel est invisible pour les yeux...

Frases de Chanel
"Sou contra uma moda que não dure. É o meu lado masculino. Não consigo imaginar que se jogue uma roupa fora, só porque é primavera."
“ A mulher pode ser crisálida e borboleta. Seja crisálida durante o dia e borboleta à noite.”
“A moda é como arquitetura, pura questão de proporções."
"Uma mulher vestida de claro raramente fica de mau-humor”


"A natureza nos dá o rosto dos 20 anos. A vida modela o dos 30. Mas temos que merecer o rosto dos 50.” ·
"Elegância é tudo aquilo que é belo, seja no direito seja no avesso."
"Sou a última do meu gênero. Não terei sucessores. Espero apenas que o meu exemplo não seja esquecido muito depressa".
"A roupa deve ser, antes de tudo, cômoda e prática. É a roupa que deve adaptar-se ao corpo e não o corpo que deve deformar-se para adaptar-se à roupa."

"Os homens que querem se fazer notar pelas roupas são uns cretinos. As mulheres podem sobreviver a quase todas as formas de ridículo; um homem ridículo está perdido, a menos que seja gênio."
"Aos 50 anos a mulher é responsável por seu rosto. Ninguém é jovem aos 50. Costumo dizer aos homens: acham que ficam mais bonitos carecas?”

“Sou a última do meu gênero. Não terei sucessores. Espero apenas que o meu exemplo não seja esquecido muito depressa".
"A roupa deve ser, antes de tudo, cômoda e prática”.

1 de Setembro de 2008

A Coisa Mais Linda Que Existe

Gilberto Gil e Torquato Neto

Coisa mais linda nesse mundo
É sair por um segundo
E te encontrar por aí
E ficar sem compromisso
Pra fazer festa ou comício
Com você perto de mim

Na cidade em que me perco
Na praça em que me resolvo
Na noite da noite escura
lindo ter junto ao corpo
Ternura de um corpo manso
Na noite da noite escura

A coisa mais linda que existe
É ter você perto de mim

O apartamento, o jornal
O pensamento, a navalha
A sorte que o vento espalha
Essa alegria, o perigo
Eu quero tudo contigo
Com você perto de mim.


Foto: Lá vão elas de Rui Fajardo



De Não Ser, Sendo Constantemente

José Carlos Capinam

Não sou o mesmo de olhar vazio
e palavra sem conseqüência usada
Andei pesando este medo
em interrogações do que seria o poeta
ante estruturas que o antecederam,
cercos de ferro, fechos de ferro, cercos.

No caminho de minha volta
esqueci canções, dupliquei memórias,
e aceito como verdade humana
que o homem é um caminho ao homem,
processo e pouso, caminha
nte e rota.


Foto: temáticas - sinais e simbolos de Silvia Antunes

30 de Agosto de 2008

In Memórias inventadas: a segunda infância"

Manoel de Barros

...que a importância de uma coisa não se mede
com fita métrica nem com balanças
nem barômetros etc.

Que a importância de uma coisa há que ser medida
pelo encantamento que a coisa produz em nós.


Foto: Trilhos sem fim ... de Sandra Marques
Esse trecho foi enviado ao meu orkut pela minha conterrânea Ana Karla

27 de Agosto de 2008

MADRIGAL MELANCÓLICO

Manuel Bandeira

O que eu adoro em ti
não é tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti
não é tua inteligência.
Não é teu espírito sutil,
tão ágil, tão luminoso
— ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
não é a tua graça musical,
sucessiva e renovada a cada momento,
graça aérea como o teu próprio pensamento,
graça que perturba e que satisfaz.

O que adoro em ti
não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza
não é o profundo instinto maternal
em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti — lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti é a VIDA!

Foto: Jump de Jorge Casais

16 de Agosto de 2008

SONHOS

Florbela Espanca

Sonhei que era a tua amante querida,
A tua amante feliz e invejada;
Sonhei que tinha uma casita branca
À beira dum regato edificada…

Tu vinha ver-me, misteriosamente,
A horas mortas quando a terra é monge
Bater o coração quando de longe
Te ouvia os passos. E anelante
Estava nos teus braços num instante,
Fitando com amor os olhos teus!

E, vê tu, meu encanto, a doce mágoa:
Acordei com os olhos rasos d´água,
Ouvindo a tua voz num longo adeus
!

Foto: Nuno Belo