28 de novembro de 2009

Sentimental Demais

Evaldo Gouveia e Jair Amorim

Sentimental eu sou
Eu sou demais
Eu sei que sou assim
Porque assim ela me faz
As músicas que eu
Vivo a cantar
Tem o sabor igual
Por isso é que se diz
Como ele é sentimental
Romântico é sonhar
E eu sonho assim
Cantando estas canções
Prá quem ama igual a mim
E quem achar alguém
Como eu achei
Verá que é natural
Ficar como eu fiquei
Cada vez mais
Sentimental


Foto: Inácio Freitas

Acontece

Cartola

Esquece o nosso amor, vê se esquece.
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai chorar, vai sofrer, e você não merece,
Mas isso acontece.
Acontece que o meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.



Foto: à espera da chuva de Raul Nunes

A Rosa


Pixinguinha
Tu és, divina e graciosa estátua majestosa
do amor, por Deus esculturada
e formada com o ardor,
da alma da mais linda flor, de mais ativo olor
e que na vida é a preferida pelo beija-flor.
Se Deus lhe fora tão clemente aqui neste oriente de luz
formada numa tela deslumbrante e bela,
teu coração, junto ao meu lanceado
pregado e crucificado sobre a rosa cruz do arfante peito teu
Tu és a forma ideal, estátua magistral
oh alma perenal, do meu primeiro amor, sublime amor.
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação de todo o coração
cintilas um amor
o riso, a fé, a dor em sândalos olentes cheios de sabor
em vozes tão dolentes quanto um sonho em flor
És láctea estrela, és mãe da realeza
és tudo enfim que tem de belo,
todo o resplendor da santa natureza
Perdão se ouso confessar-te, eu hei de sempre amar-te
Oh flor! Meu peito não resiste,
Ah, meu Deus o quanto é triste,
a incerteza de um amor que mais me faz penar
em esperar em conduzir-te um dia aos pés do altar
Jurar, aos pés do onipotente
em versos comoventes de luz,e receber a unção da tua gratidão,
depois de remir, teus desejos
em nuvens de beijos hei de envolver-te
até o meu padecer, de todo fenecer
Foto: De João Parassu

24 de novembro de 2009

Idéia Fixa


Itamar Assumpção

Um canto desesperado
Vai rasgando minha vida
Não posso ficar calado
Permitindo que se diga
Assim de mim por aí
Pirou de vez isso aquilo vive infeliz
Desvio da natureza é incapaz
Só pode ser por drogas demais
Alcoolismo, pura fraqueza
Tem noite sinto no peito
Uns dez balaios de gatos todos pretos
Ave maria credo em cruz
Esconjuro clamo jesus
Rezo, canto como se cantasse
Um hino ou um blues
Como alberta hunter clementina de jesus
Eterno amor peito em chamas arde tanto
Quem é que te destina ternuras
A dor vai dar misteriosamente na mesma certeza
Ser uma sina a loucura
Eu enchi de contras até a tampa meu baú
Só com tragédias urbanas gregas e troianas
Coloco meu sobretudo sobre mim lhufas quero saber
Sobre nada disso ou daquilo
Nem mel nem fel
Simples sou o maior trivial de que se têm notícias
Quem sou porém convém explicar muito bem meu bem
Eu vou dizer de uma vez por todas
Já tive muitos critérios
Hoje só vários delírios ativos cultivo em mim
Resolvi levar a sério o riso
Ao sair dum cemitério e eu estava bem vivo
Quem sou eu ainda não sei que canto porque gosto
Talvez negócio de quem não tem bom juízo
Mas lembrem-se astronautas eram deuses
Rola, existe disco laser, outros mundos, outras galáxias
Nunca foi a teoria idêntica com a prática
Som luz luz som
Acendo com fósforos velas contra as forças ocultas
Nos vídeos, nos palcos

Poema Transitório

Mário Quintana


(...) é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir
é preciso chegar...
Ah, como esta vida é urgente!... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas."


Foto: A Última Caravana de Vitor NUnes

21 de novembro de 2009

Acalanto de John Talbot



Manuel Bandeira


Dorme, meu filhinho,

Dorme sossegado,

Dorme, que a teu lado

Cantarei baixinho.

O dia não tarda...

Vai amanhecer:

Como é frio o ar!

O anjinho da guarda

Que o Senhor te deu,

Pode adormecer,

Pode descansar.

Que te guardo eu.

Foto:Fragmentos... de um Amor...de uma Vida...! de espirito da Luz

13 de novembro de 2009

As sem razões do amor


Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Foto: Você vai dizer que não...de António Ramos

Bertold Brecht


Bertold Brecht


Há homens que lutam um dia, e são bons;

Há outros que lutam um ano, e são melhores;

Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;

Porém há os que lutam toda a vida

Estes são os IMPRESCINDÍVEIS


Foto: Divulgação

Lindo poeminha!


António Gedeão

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

Foto: Bruno Correia

Alexandre O'neill


Alexandre O'Neill,


Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento

digo-te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti.


Foto: 3 de Ricardo Costa

24 de outubro de 2009

Os pés pela cabeça

Alê Quites

O encanto
surgiu no intervalo
dos seus pés a sua cabeça.
Eu não resisti
troquei os pés pela cabeça
e aos mãos pelos olhos.
Maravilhou-se o céu
com o rosto estrelado.
O sorriso brotou no mesmo chão
que o juízo foi enterrado.
Troquei tudo por mais um minuto.

Foto: Anna de Ricardo Cordeiro

13 de outubro de 2009

Tocando em Frente



Almir Sater e Renato Teixeira

Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia.
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
e no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz


Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Foto: À Sombra de Gandhi de António Macedo

Incomparavelmente Clarice!



Clarice Lispector

"Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão...tranquilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito , não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer... Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca."


foto: Metamorfose (não sei a autorida da foto)

Trechos de Paulo Leminski


Paulo Leminski
"Hoje o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher lingüiça
entre um triunfo e um waterloo"
Foto: De Carlos Afonso

10 de outubro de 2009

Chove!


José Gomes Ferreira


Chove...

Mas isso que importa!,

se estou aqui abrigado nesta porta

a ouvir a chuva que cai do céu

uma melodia de silêncio

que ninguém mais ouve

senão eu?

Chove...

Mas é do destino

de quem ama

ouvir um violino

até na lama.


Foto: Encantamento II de Ana Cecília

Repouso


Adalgisa Nery

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.


De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)
Foto: de Jonas Lucena

2 de outubro de 2009


Composição: (Alex Beaupain/ Versão: Zélia Duncan)


Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?

Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?

Na casca, a vida vem tão doce e tão modesta

Quem se perdeu de si?


Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto

Confesso que perdi, me diz quantos se vão?

Paixões passam por mim, amores que têm pressa

Vão se perder em si


Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias

Seus beijos de mentira não chegam muito longe

Paixões correm por mim, são só suaves febres

Seus beijos mais gentis derretem pela neve

Pra que tocar o amor pelo sabor do gesto

Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?

Amarga essa canção, os dias e o resto

Se perde como um grão


Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto

Te empresto da maçã, vai junto o coração

Esquece o que eu não fiz

Te sirvo o bom da festa

De um jeito mais feliz


Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor

carinho sem querer me cansa e me dói


Se o amor vem pra ficar, faz tudo mais bonito

Me basta ter na mão e o corpo tem razão


foto: Kiss your life... de Isabela Daguer

11 de setembro de 2009

Sedução

Adélia Prado

A poesia me pega com sua roda dentada,
e força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia para eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Grande Desejo

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o
cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cântigos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele,vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
pra chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.


Esses poemas de Adélia Prado estão no livro "Bagagem".
Foto: Que neste mar de Malmequeres, nasça o Poema do Tempo... de Fátima Silveira

PROJETO DE PREFÁCIO


Mario Quintana

Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Foto: Não sei de quem é

8 de setembro de 2009

Segue Teu Destino



Nuno Júdice

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós próprios.

Suave é viver

só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe

a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.


Foto: A espera de Luiz Silva

6 de agosto de 2009

Rebelião dos Sentimentos

Gilberto Brandão Marcon

Não deveria estar triste,
Mas de fato estava.
Queria não ter ansiedade,
Mas estava ansioso.


Desprezava a autopiedade,
Mas sentia-se fraco para abandoná-la.
Queria mover-se rapidamente,
Mas seus passos estavam inertes.

Tinha o ideal de muito construir,
E a realidade só fazia destruir.
Almejava a explosão de forças,
Mas deprimia-se acuado.

Poderia se entregar ao medo,
Mas se enchia de coragem agressiva.
Caído, fazia-se impiedoso consigo.
Zombava de si, e desafiava-se à luta.

Erguia o punho à indiferença do
tempo,
Rebelava-se contra o determinismo.
Atraía-lhe o afeto da suave chuva,
Mas o
coração queria tempestade.

Rejeitava o mundo externo
E mergulhava na sua intimidade.
Um jogo de realidade e
ilusão,
A verdade lutando com a mentira.

E quem pode dizer o que é certo?
E quem pode afirmar o errado?
Meros servos da moral que somos,
Ainda longe da filiação da ética.

E toda dignidade pode ser encenação.
E todo idealismo, exercício de hipocrisia.
E então possuidores, seremos desprovidos.
Crentes da riqueza, seremos miseráveis.

A dor aguda pode anestesiar.
O marasmo pode tornar-se costume.
A indiferença pode justificar a covardia

E muito querendo, pode-se ter nada

Foto: s/t de Mario Pereira

3 de agosto de 2009

Encantamento

Abgar Renault

Ante o deslumbramento do teu vulto
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em lua a treva em que me oculto.

Estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza,
e, disperso por toda a natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.

É tua vida a minha própria vida,
e trago em mim tua alma adormecida...
Mas, num mistério surdo que me assombra,

Tu és, às minhas mãos, fluida, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra...



Foto: Banho de Luz de Paulo Vieira

26 de julho de 2009

Confissões

Carolina Salcides

O que me compõe é tudo o que minha alma já viveu.
É tudo o que meu corpo já sentiu.
É o que eu me lembro, sonho, sinto:
Amores, dores... Medos, vícios.
É o que eu crio para mim
E o que eu tiro... Desmorono...
E o que fica é só o verdadeiro:
Componho-me.

O que me habita é tudo o que eu consinto.
Tudo que é intrínseco, eu convivo.
Todos os “eus” me habitam
E todos eles gritam...
Fugas, fogueiras, fuzuês...
Habitam-me todos os sexos...
Crenças, cores, quereres...
E eu não fujo:
Habito-me.

O que eu conheço é o que eu busco
E eu busco só o total...
O que toca fundo, o que tem sentido.
Meio termo, meio passo, meio vivo;
O meio me faz mal.
Quem não se conhece aceita qualquer coisa...
Não conheço o caminho,... Mas hei de seguir...
Não sei do mundo, mas sei de mim:
Conheço-me.

O que eu permito é tudo que me eleva
Se não engrandece, não me acrescenta: desce!
A luz e a sombra me somam, me mostram, me são.
Sou o doce e o veneno, não há o que escolher...
Verso e inverso, yin-yang, eu me completo.
Não me tiro:
Permito-me.

Tudo que minha alma já viveu me compõe
E o que me compõe habita em mim
E o que habita em mim, eu conheço
E o que eu conheço eu permito
E o que eu permito, é.
Eu Sou.
Permito-me!
Foto: de Rui Bento Alves

30 de junho de 2009

Poema Erótico

Manuel Bandeira

Teu corpo claro e perfeito,
Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio,
é como um véu de noivado...
Teu corpo é dourado...

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume
Teu corpo é a brasa do lume

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
E puro como nas fontes

A água clara que cereja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia da água e da chama...

A todo o momento o vejo...
Teu corpo...a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Foto: 1 de Ricardo Costa

Elegia ao primeiro amigo, fragmentos

Vinícius de Moraes, “Cinco Elegias” (1943)

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de
adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas
delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me
delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo. Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.
(...)

Fonte: não sei de quem é foto

Manoel de Barros

Manoel de Barros

Deus disse: vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.


Fotos: Thoughts of the things yet to be de Wiseacre


4 de maio de 2009

Para poder morrer

Hilda Hilst
Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.

Porque assim é preciso

Para que tu vivas.


Foto: Ribeira negra de Pedro Moreira

3 de março de 2009

Vieste

Ivan Lins/Vitor Martins

Vieste na hora exata com ares de festa
E luas de prata
Vieste com encantos,
Vieste com beijos silvestres
Colhidos pra mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas
Plantadas em mim...
Vieste com a cara e a coragem,
Com malas, viagens,
Pra dentro de mim...
Vieste a hora e a tempo,
Soltando meus barcos
E velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro
Velando por mim...
Vieste de olhos fechados,
Num dia marcado,
Sagrado pra mim
Vieste com a cara e a coragem,
Com malas, viagens,
Pra dentro de mim, meu amor...

Foto: momentos outonais ….de Pedro Casquilho



17 de fevereiro de 2009

Ternura


Menotti del Picchia(1892-1988)

Se eu te dissesse o meu amor...
(Olha o mar como é vasto! Ouve o mar como geme!)

Se eu te dissesse o meu amor!
(É meu braço que treme ou teu braço que treme?)

Se eu te dissesse o meu amor?
(Olha como o céu esplende! Olha como o sol aquece!)

Se eu te dissesse o meu amor...

Mas teu corpo estremece... A minha alma estremece
como se eu te dissesse
o meu amor...

Foto: Olhares...! de Espirito da Luz

Simplesmente amor


délia Prado

Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero
Por causa dele falo palavras como lanças

Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero
Por causa dele podem entalhar-me:
Sou de pedra sabão.

Alegre ou triste
Amor é a coisa que mais quero.

Foto: Não sei de quem é a autoria

26 de janeiro de 2009

Soneto do impossível

Abgar Renault

Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta
das sílabas que beijam tuas asas,
nem a curva em que morre a ardente seta,
nem tanta eternidade em horas rasas.

Não medirás a bêbeda corola
que abriste no final do meu sorriso,
nem tocarás o mel que canta e rola
na insônia sem estradas onde piso.

Não saberás o céu construído a fogo,
que tua jovem chave cerra e empana,
nem os braços de espuma em que me afogo.

Não verão os teu olhos quotidiana
a minha morte de homem embebida
no flanco de ouro e luar da tua vida.



Foto: 001 de Bubbles

Negro Amor


Composição: Bob Dylan / Versão Péricles Cavalcante e Caetano Veloso


Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol
Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada negro amor

A estrada é pra você e o jogo é a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha maluquice em seu lençol
Sob seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada negro amor
E não tem mais nada negro amor

Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores? e agora?
Até o tapete sem você voou
E não tem mais nada negro amor
E não tem mais nada
Negro amor

As pedras do caminho deixe para trás
Esqueça os mortos eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua
Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada negro amor

Os Argonautas




Caetano Veloso (1978)

O barco
meu coração não aguenta
tanta tormenta, alegria
meu coração não contenta
o dia
o marco
meu coração
o porto
não


navegar é preciso
viver
não é preciso


o barco
noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso
o arco
da madrugada
o porto
nada

navegar é preciso
viver
não é preciso

o barco
o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue
o charco
barulho lento
o porto
silêncio

navegar é preciso
viver
não é preciso


Foto: Aguarela no sado...de Jose Canelas

Todo o sentimento

Cristóvão Bastos - Chico Buarque/1987


Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez


Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu

Foto:Se todos pudessemos andar de mãos dadas... de Landa




20 de janeiro de 2009

Ausência


Nuno Júdice, in Pedro Lembrando Inês


Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

R E S Í D U O S

(Carlos Drummond de Andrade, em “Rosa do Povo”,Ed. Aquilar, 1964, “Obra Completa”, pág. 163)

“De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
Ficou um pouco.


Ficou um pouco de luz
Captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
De ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pé
De que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço vazio de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
No queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio
Um pouco ficou, um pouco
Nos muros zangados,
Nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
No pires de porcelana,
Dragão partido, flor branca,
De ruga na vossa testa,
Retrato.
Se de tudo fica um pouco,
Mas por que não ficaria
Um pouco de mim? No trem
Que leva ao norte, no barco,
Nos anúncios de jornal,
Um pouco de mim em Londres,
Um pouco de mim algures?
Na consoante?
No poço?

Um pouco fica oscilando
Na embocadura dos rios
E os peixes não o evitam,
Um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco,
Não muito: de uma torneira
Pinga esta gota absurda,
Meio sal e meio álcool,
Salta esta perna de rã,
Este vidro de relógio
Partido em mil esperanças,
Este pescoço de cisne,
Este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco;
De mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
De tudo ficou um pouco;
Vento nas orelhas minhas,
Simplório arroto, gemido
De víscera inconformada,
E minúsculos artefatos:
Campânula, alvéolo, cápsula
De revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
E abafa
O insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
E sob as ondas ritmadas
E sob as nuvens e os ventos
E sob as pontes e sob os túneis
E sob as labaredas e sob o sarcasmo
E sob a gosma e sob o vômito
E sob o soluço, o cárcere, o esquecido
E sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
E sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
E sob tu mesmo e sob teus pés já duros
E sob os gonzos da família e da classe,
Fica sempre um pouco de tudo.”



Foto: Unclaimed (?)

Leve do livro Poemas Completos de Alberto Caeiro


Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)


" Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leva passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
em procuro sabê-lo."


Foto: Flores(não sei de quem é a autoria)

18 de janeiro de 2009

Case-se comigo

Liminha & Vanessa da Mata

Case-se comigo
Antes que amanheça
Antes que não pareça tão bom pedido
Antes que eu padeça
Case comigo
Quero dizer pra sempre
Que eu te mereço
Que eu me pareço
Com o seu estilo
E existe um forte pressentimento dizendo
Que eu sem você é como você sem mim
Antes que amanheça, que seja sem fim
Antes que eu acorde e seja um pouco mais assim
Meu príncipe, meu hóspede, meu homem, meu marido
Meu príncipe, meu hóspede, meu marido

Foto: véus e casamentos de Paulo Cesar

Lendo Fernando Pessoa...



Fernando Pessoa


"Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria,
Só porque foi e voou,
E hoje já é outro dia."



Foto: Autumn walk de Francisco Veiga




A Sombra de um Jatoba

Toquinho

Raios de sol na varanda
verde cobrindo o jardim
poder sentir a vida espreguiçar
com o cheiro da madrugada
dama-da-noite, jasmim
olhar no céu estrelas pra contar

Ter meus amigos comigo
quem amo me amando, sim
longe do amor de quem nos finge amar
Ver na manhã de um domingo,
meu filho sorrir pra mim
depois dormir à sombra de um jatobá

Poucas coisas valem a pena
o importante é ter prazer
Longe de mim a inveja e a maldade escondidas na vida
Hoje estamos nós em cena e não há tempo a perder
pois tudo acaba mesmo sempre em despedida


Foto: Friends de Alexandre Bravo


Graciliano Ramos em Memórias do cárcere

"(...) Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de idéias obliteradas."


Foto: Love in blue de gonçalo Franco

17 de janeiro de 2009

Overdose


Alice Ruiz e Alzira Espíndola


Já notou que eu te amo
ou você pensa
que toda vez que eu ligo
é por engano?


já sacou que é meu vício
minha droga
meu barato
ou vou ter que curtir a rebordosa
em algum hospício?


pra me deixar normal
só uma overdose de você
pra me pirar legal
só uma dose dupla desse mal



Foto: Hide'n' Seek de Graçaa Loureiro

Clarice Lispector


Clarice Lispector, "Água Viva"


"Para me refazer e te refazer volto a meu estado de jardim e sombra, fresca realidade, mal existo e se existo é com delicado cuidado. Em redor da sombra faz calor de suor abundante. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando. Estou cheia de acácias balançando amarelas, e eu que mal e mal comecei a minha jornada, começo-a com um senso de tragédia, adivinhando para que oceano perdido vão os meus passos de vida. E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza. Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca."

Foto: Framed de J. P. Sousa

15 de janeiro de 2009

Mário Quintana


(Mário Quintana - 80 Anos de Poesia, 1986)

Fere de leve a frase... E esquece... Nada

Convém que se repita...

Só em linguagem amorosa agrada

A mesma coisa CEM MIL VEZES dita.’’


Foto: Unidos pelo sentimento de Marta Ferreira

14 de janeiro de 2009

Soneto XLIV - Sábras que no te amo y que te amo

Pablo Neruda (1904-2004)


Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo e
por isso te amo quando te amo



Texto do livro "CIEN SONETOS DE AMOR "Soneto XLIV "Sábras que no te amo y que te amo"de Pablo

Foto: SweetDreams de Graça Loureiro

9 de janeiro de 2009

A Ana


Ana Cañas / Alexandre Fontanetti


A Ana disse ontem
A Ana ficou triste

A Ana também leu
A Ana não existe

É a Ana insiste
A Ana não consegue
A Ana inventou
Ela também merece

A Ana é azeda
Mas é doce quando é doce
A Ana é azeda
Mas muito doce quando é doce

A Ana nada sabe
A Ana sempre canta
A Ana me enrola
A Ana me encanta

A Ana se pintou
A Ana não limpou
A Ana que escreveu
A Ana que esqueceu

Foi a Ana que fez
Foi a Ana que foi
Foi a Ana em fá
Foi a Ana, foi

A Ana ama
A Ana odeia
A Ana sonha
A Ana canta

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

"Comovo-me em excesso,
por natureza e por ofício.
Acho MEDONHO alguém viver sem paixões."

Foto: Olhos vendados (naao sei de quem e a autoria da foto)




Mário Quintana

Mário Quintana

"Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava
."


Foto: Carinho (Nao sei a autoria)

Benoîte Groult,no livro “Um toque na estrela”

Benoîte Groult,no livro “Um toque na estrela”

“No início,cada indivíduo tinha sua cota de destino. A fatalidade, como se diria (…). Triste perspectiva para mim, que amo o improviso e as fendas da existência por onde se infiltram os milagres. É por isso que adoro embaralhar as cartas. Acender a fagulha de um olhar para fazer nascer o amor onde não se esperava”

Foto: waiting de youngdoo

Fernanda Young

Fernanda Young

"...Olha no espelho,
recupera o fio da
Meada
Ela sabe quem é. Ela não é Yeats,
não é Rike,
Neruda,
Blake,
Drummond.
Ela é mulher,
poeta que volta no tempo enquanto dorme,
revendo o amor que acreditou..."

Foto: Fanfan de i am who i am


2 de dezembro de 2008

Palavras de Ariano


"O que encanta é a recriação"

"Me chamem de doido que eu prefiro"
"Eu sou devoto do sonho"


"Suassuna com ç é nome de cobra,
Suassuna com SS é nome de onça"


"Como sou escritor me acho no direito de mentir"

As palavras iniciais de Ariano ao admirar-se com a uma grande platéia:
"Isso não é uma palestra e sim um comício"
Foto retirada do Orkut de Lanaíza

30 de novembro de 2008

Para ser grande, sê inteiro


Fernando Pessoa (Ricardo Reis, Odes 14-2-1933)


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Foto: After the workout de Lenny

A Seta e o Alvo



Paulinho Moska e Nilo Romero



Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.
Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"
E você só acredita quando eu juro.
Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.
Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade.
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade.
É a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa não te espera!
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?
Sempre a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?


Foto: Why do people feel alone. . . de Dr. Bahraini

21 de novembro de 2008

Formas


Adélia Prado


De um único modo se pode dizer a alguém:
'não esqueço você'.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido
'não esqueço você'.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito
e a morte é amor.


Foto: mh2 de Concheven

Balada da Irremediável Tristeza


Abgar Renault


Eu hoje estou inabitável...
Não sei por quê,
levantei com o pé esquerdo:
o meu primeiro cigarro amargou
como uma colherada de fel;
a tristeza de vários corações bem tristes
veio, sem quê, nem por quê,
encher meu coração vazio... vazio...

Eu hoje estou inabitável...
A vida está doendo... doendo...
A vida está toda atrapalhada...
Estou sozinho numa estrada
fazendo a pé um raid impossível.
Ah! se eu pudesse me embebedar
e cambalear... cambalear...
cair, e acordar desta tristeza
que ninguém, ninguém sabe...
Todo mundo vai rir destes meus versos,
mas jurarei por Deus, se for preciso:
eu hoje estou inabitável...
Foto: 365 tiny smallde ukimmeru

como te amo?


Elizabeth Barrett Browning


Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido – quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.

Foto: butterfly, dave matthews band de Auro

14 de novembro de 2008

Como dizia o poeta


(Vinícius de Moraes, "Como dizia o poeta" (1971, )


Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não



Foto: ...na areia da praia... de Alicina

Sempre Clarice

Clarice Lispector

Eu sou à esquerda de quem entra.
E estremece em mim o mundo.(...)
Sou caleidoscópica:
fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro.
Sou um coração batendo no mundo.


Foto:A Laranja Sentada de António Macedo

13 de novembro de 2008

Biografia do Orvalho


Manoel de Barros


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou
- eu não aceito.
Não agüento ser apenas UM
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.



Manoel de Barros, “Retrato do Artista Quando Coisa” (1998)

Foto: My vendetta de Eleutera

10 de novembro de 2008

Manoel de Barros



Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrava um título para os seus poemas. Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do Mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)
As antíteses congraçam.



Foto: De Pedro Miguel Costa