3 de set. de 2008

L\ e essentiel est invisible pour les yeux...

Frases de Chanel
"Sou contra uma moda que não dure. É o meu lado masculino. Não consigo imaginar que se jogue uma roupa fora, só porque é primavera." 


“ A mulher pode ser crisálida e borboleta. Seja crisálida durante o dia e borboleta à noite.”
“A moda é como arquitetura, pura questão de proporções."

 
"Uma mulher vestida de claro raramente fica de mau-humor”



"A natureza nos dá o rosto dos 20 anos. A vida modela o dos 30. Mas temos que merecer o rosto dos 50.” ·

"Elegância é tudo aquilo que é belo, seja no direito seja no avesso."

"Sou a última do meu gênero. Não terei sucessores. Espero apenas que o meu exemplo não seja esquecido muito depressa".

"A roupa deve ser, antes de tudo, cômoda e prática. É a roupa que deve adaptar-se ao corpo e não o corpo que deve deformar-se para adaptar-se à roupa." 



"Os homens que querem se fazer notar pelas roupas são uns cretinos. As mulheres podem sobreviver a quase todas as formas de ridículo; um homem ridículo está perdido, a menos que seja gênio."


"Aos 50 anos a mulher é responsável por seu rosto. Ninguém é jovem aos 50. Costumo dizer aos homens: acham que ficam mais bonitos carecas?” 




"Eu não entendo como uma mulher pode sair de casa sem se arrumar um pouco - mesmo que por delicadeza. Depois, nunca se sabe, talvez seja o dia em que ela tem um encontro com o destino. E é melhor estar tão bonita quanto for possível para o destino."

" Disfarçar-se é encantador. Parecer disfarçada é triste."

"Uma mulher possui a idade que merece "


1 de set. de 2008

A Coisa Mais Linda Que Existe

Gilberto Gil e Torquato Neto

Coisa mais linda nesse mundo
É sair por um segundo
E te encontrar por aí
E ficar sem compromisso
Pra fazer festa ou comício
Com você perto de mim

Na cidade em que me perco
Na praça em que me resolvo
Na noite da noite escura
lindo ter junto ao corpo
Ternura de um corpo manso
Na noite da noite escura

A coisa mais linda que existe
É ter você perto de mim

O apartamento, o jornal
O pensamento, a navalha
A sorte que o vento espalha
Essa alegria, o perigo
Eu quero tudo contigo
Com você perto de mim.


Foto: Lá vão elas de Rui Fajardo



De Não Ser, Sendo Constantemente

José Carlos Capinam

Não sou o mesmo de olhar vazio
e palavra sem conseqüência usada
Andei pesando este medo
em interrogações do que seria o poeta
ante estruturas que o antecederam,
cercos de ferro, fechos de ferro, cercos.

No caminho de minha volta
esqueci canções, dupliquei memórias,
e aceito como verdade humana
que o homem é um caminho ao homem,
processo e pouso, caminha
nte e rota.


Foto: temáticas - sinais e simbolos de Silvia Antunes

30 de ago. de 2008

In Memórias inventadas: a segunda infância"

Manoel de Barros

...que a importância de uma coisa não se mede
com fita métrica nem com balanças
nem barômetros etc.

Que a importância de uma coisa há que ser medida
pelo encantamento que a coisa produz em nós.


Foto: Trilhos sem fim ... de Sandra Marques
Esse trecho foi enviado ao meu orkut pela minha conterrânea Ana Karla

27 de ago. de 2008

MADRIGAL MELANCÓLICO

Manuel Bandeira

O que eu adoro em ti
não é tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti
não é tua inteligência.
Não é teu espírito sutil,
tão ágil, tão luminoso
— ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
não é a tua graça musical,
sucessiva e renovada a cada momento,
graça aérea como o teu próprio pensamento,
graça que perturba e que satisfaz.

O que adoro em ti
não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza
não é o profundo instinto maternal
em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti — lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti é a VIDA!

Foto: Jump de Jorge Casais

16 de ago. de 2008

SONHOS

Florbela Espanca

Sonhei que era a tua amante querida,
A tua amante feliz e invejada;
Sonhei que tinha uma casita branca
À beira dum regato edificada…

Tu vinha ver-me, misteriosamente,
A horas mortas quando a terra é monge
Bater o coração quando de longe
Te ouvia os passos. E anelante
Estava nos teus braços num instante,
Fitando com amor os olhos teus!

E, vê tu, meu encanto, a doce mágoa:
Acordei com os olhos rasos d´água,
Ouvindo a tua voz num longo adeus
!

Foto: Nuno Belo

16 de jul. de 2008

Canção amiga


Milton Nascimento


Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos
Caminho por uma rua
Que passa em muitos países
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos
Eu distribuo segredos
Como quem ama ou sorri
No jeito mais natural
Dois caminhos se procuram
Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas

Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças
Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças


Foto: Enquanto dormias... de Isidro Dias

Exausto


Adélia Prado


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


Foto: Two in a bronze lounge-chair

Me comovem


Eliane Pantoja Vaidya


Me comovem tuas mãos limpas
e tua boca suja.


Foto: Transparente de Sérigo pinto




15 de jul. de 2008

Sem Tempo

Angela Carneiro


Me falta tempo
para ler todos os livros que quero
Me falta tempo para passeios e praias
e as locadoras com seus filmes
Felinis que não vi
e os museus que me esperam
me falta tempo.

Me falta tempo para amar os flertes
e aprofundar as amizades de coquetéis
me falta tempo para arrumar o armário
jogar coisas fora
passar a limpo a caderneta de telefone
redecorar o quarto
Me falta tempo para o orfanato
e ajudar o meu vizinho a pendurar o quadro na parede.

Me falta tempo para aprender japonês
pintar em tecido
tocar piano
tecer meus planos
Me falta tempo para as aquarelas que sonho
preciso anotar meus sonhos
Mas
me falta tempo.

Tempo para os amigos antigos que já me esqueceram
tempo para as músicas e cds
tempo para o estrangeiro, ilhas e cantões a conhecer
Me falta tempo para os poemas que a poesia me exige
e gravar os programas de TV
e nunca os ver
no entanto,
quantas vezes não tenho nada, absolutamente nada
para fazer.


Foto: Janela Indiscreta de Vitor Nunes


:

29 de jun. de 2008

Affonso Romano de Sant'Anna.


Affonso Romano de Sant'Anna.


"A beleza é um grito,
é um fruto,
beleza é um vício.
É um mergulho vivo
no infinito."


Foto: Inquietação de Ramarago

7 de jun. de 2008

Engorda


Leila Miccolis


Ilusões para os aflitos,
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias,
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorriso para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.



Foto: À espera... de sIsabel gomes da silva

Para Ler De Manhã E À Noite

Bertold Brecht


Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.


Foto: Pedaços de Veludo de Artur Ferrão

1 de jun. de 2008

Pérola Negra

Luiz Melodia


Tente passar pelo que estou passando
Tente apagar este teu novo engano
Tente me amar, pois estou de amando
Baby, te amo, nem sei se te amo

Tente usar a roupa que estou usando
Tente esquecer em que ano estamos
Arranje algum sangue, escreva num pano
Pérola Negra, te amo, te amo

Rasgue a camisa, enxugue meu pranto
Como prova de amor mostre teu novo canto
Escreva num quadro em palavras gigantes
Pérola Negra, te amo, te amo

Tente entender tudo mais sobre o sexo
Peça meu livro querendo te empresto
Se intere da coisa sem haver engano
Baby, te amo, nem sei se te amo...



Foto: hi ! do album de Moonchild




Teus filhos não são teus filhos.


Kahlil Gibran

Teus filhos não são teus filhos.
Eles são os filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de ti, mas não de ti,
E embora estejam contigo, não te pertencem.
Podes dar-lhes o teu amor, mas não os teus pensamentos,
Pois eles têm seus próprios pensamentos,
Podes abrigar-lhes o corpo, mas não a alma,
Pois sua alma mora na casa do amanhã,
que não podes visitar, nem mesmo em sonhos.
Podes esforçar-te para ser como eles, mas procura não fazê-los
ser como tu,
Pois a vida não anda para trás nem se demora no dia de ontem.



Foto: Primogénito de António Amen




Nasci antes do tempo



Cora Coralina


Tudo que criei e defendi
nunca deu certo.
Nem foi aceito.
E eu perguntava a mim mesma
Por quê?

Quando menina,
ouvia dizer sem entender
quando coisa boa ou ruim acontecia a alguem:
Fulano nasceu antes do tempo.
Guardei

Tudo que criei, imaginei e defendi
nunca foi feito.
E eu dizia como ouvia
a moda de consolo:
Nasci antes do tempo.

Alguém me retrucou.
Você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Não entendi e disse Amém.

Foto: Pintura matisse

25 de mai. de 2008

de amargar

Capiba

Eu bem sabia que esse amor um dia
Também tinha seu fim
Essa vida vida é mesmo assim
Não penses que estou triste
Nem que vou chorar
Eu vou cair no frevo que é de amargar.
Eu já arranjei outra morena bonita
Anda bem vestida, cheia de laço de fita
Gosta de mim com toda emoção
E já se diz a dona do meu coração.
Eu bem sabia que esse amor um dia
Também tinha seu fim
Essa vida vida é mesmo assim
Não penses que estou triste
Nem que vou chorar
Eu vou cair no frevo que é de amargar.
Minha morena empre diz, quando me vê
- Gosto de você, não sei como e porque.
Me faz carinhos a todo momento
Porém eu tenho medo do seu juramento.
Tenho uma coisa pra lhe dizer
Mas não digo não porque faz mal ao coração.
Tenho uma coisa pra lhe dizer
Mas não digo não porque faz mal ao coração.
Não confessarei o meu segredo
Só porque você é convencida
Pois se eu lhe contar você vai rir
E sem querer eu vou chorar por você, minha querida.
Tenho uma coisa pra lhe dizer
Mas não digo não porque faz mal ao coração.
Tenho uma coisa pra lhe dizer
Mas não digo não porque faz mal ao coração.
Eu sei que você gosta de outro
Mas eu lhe queria mesmo assim
O meu coração eu lhe darei
Porém com uma condição, se você disser que sim.





Sei, Estou, sou

Carla Dias


"Seria suícidio
se eu levantasse,
derrubasse os lençois
e dançasse?
Seria um milagre
se eu revirasse as gavetas
e encontrasse um sonho?
Venha dançar e acredite,
ainda sei encontrar alguém
e olhar dentro dos olhos dele!
Ainda..."

Foto: de Nuno Belo

Envolve-me amorosamente

António Botto Presença, 1999

Envolve-me amorosamente
Na cadeia de teus braços
Como naquela tardinha...
Não tardes, amor ausente;
Tem pena da minha mágoa,
Vida minha
Vai a penumbra desabrochando
Na alcova
Aonde estou aguardando
A tua vinda...
Não tardes, amor ausente!
Anoitece. O dia finda...
E as rosas desfalecendo
Vão caindo e murmurando:
– Queremos que Ele nos pise!
Mas, quando vem Ele, quando?...




in As Canções de António Botto

Flores e frutos. Frutos e Flores

Marina Colasanti

Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.

24 de mai. de 2008

Mesa dos sonhos


Alexandre O'Neill


Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte
povoando de novos sonhos a vida.


Foto: Amanhã de Ana de Sousa

16 de mai. de 2008

Súplica


Florbela Espanca



Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.
O meu colo é arninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!
Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d'astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!
Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente...
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! ...
Vem para mim, amor... Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar

Meu último suspiro na tua boca!



Foto: Deixo-me levar pelas tuas ondas de José Neves

O Espelho (trecho)

Machado de Assis

"Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro(...) Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação."


Foto: de Carlos Manuel Pereira



1 de mai. de 2008

Em torno de um título de Maria Archer


Victor Oliveira Mateus


Devia haver uma lei
um qualquer decreto ou norma
que nos impedisse o rigor dos afectos
o cataclismo dos desejos

Devia haver um céu
com nuvens de arame-farpado
onde estiletes vigilantes
pronto trespassassem
todo o peito que o sonho insistisse

Talvez - quem sabe?- até
se pudesse criar uma ilha
cercada de vidros e circuitos eléctricos
para onde se desterravam
os obstinados das paixões
os insurrectos da fantasia

Devia era haver qualquer coisa
contra esta tortura de ouro e maravilha
que nas margens do tempo insiste
e em barcos que ninguém vê
aos poucos nos desencaminha


Foto: solidão... de David Caretas





NOITE CARIOCA

Ana Cristina César

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco
na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te
apresento a mulher mais discreta do mundo: essa
que não tem nenhum segredo.


Foto: Sombra de Luís Mendonça

Habitam-me todos os sexos*

Célia de Lima (Janeiro de 2007)

O que me habita é tudo o que já me compôs.
Vícios e medos vencidos...
fugas, fogueiras, nações...
Todos os eus me habitam;
em muita sombra e alguma luz.
Habitam-me todos os sexos,
todas as cores, toda fé.
Verso e deserto. Habito-me."

Foto: plastic wind de DDiaarte

*Não é o título da poesia

O Homem Público N. 1 (Antologia)



Ana Cristina César(1952-1983)


Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.



Foto: cafe #2 de moonchild

Me Revelar

C. Oyens e Zelia Duncan

Tudo aqui!
Quer me revelar
Minha letra
Minha roupa
Meu paladar
O que eu não digo
O que eu afirmo
Onde eu gosto de ficar
Quando amanheço
Quando me esqueço
Quando morro de medo do mar...

Tudo aqui!
Quer me revelar
Unhas roídas
Ausências, visitas
Cores na sala de estar...

O que eu procuro
O que eu rejeito
O que eu nunca vou recusar
Tudo em mim quer me revelar...

Tudo em mim!
Quer me revelar
Meu grito, meu beijo
Meu jeito de desejar
O que me preocupa
O que me ajuda
O que eu escolho prá amar
Quando amanheço
Quando me esqueço
Quando morro de medo do mar
Ah! Ah!...

Tudo aqui!
Quer me revelar
Unhas roídas
Ausências, visitas
Cores na sala de estar...

O que eu procuro
O que eu rejeito
O que eu nunca vou recusar
Tudo em mim quer me revelar
Ah! Ah! Ah! Ah!
Tudo em mim


Foto: de Rui Bento Alves

Não te Chamo

Sophia de Mello Breyner Andresen

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser


Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite


Foto: Do Céu desceram à Terra. Eu... queria chegar Lá! de Fátima Silveira

21 de abr. de 2008

Soneto de Carnaval

Vinicius de Moraes

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo. "


Foto: de Jacob Lopes



Lista de Preferências

Bertold Brecht

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexegüíveis.
Meninas, as Veras.
Mulheres, as insinceras.
Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os continentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, o outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.


Foto: Transparente de Sérigo pinto





Passagem das Horas

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

(...)
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
(...)

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.
(...)

Foto: autumn scene #1 de (?)

20 de abr. de 2008

Seja Original

ARISTÓTELES

"A tendência para a imitação é instintiva no homem, desde a infância. Neste ponto distingue-se de todos os outros seres, por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação. Pela imitação adquire seus primeiros conhecimentos, por ela todos experimentam prazer. "


Foto: De Rui Fajardo

17 de abr. de 2008

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Carlos Drummond de Andrade

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Foto: Dahhhhhh...! de Isidro Dias

Hilda Hilst

Hilda Hilst

De delicadeza me construo.
Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.

Foto: não sei quem é o fotógrafo



Tomoko Narita Sabiá

Tomoko Narita Sabiá

Em volta à fogueira,
a dança.
Avançando a noite,
ferve a brincadeira.


A aurora vernal
caleidoscopicamentese
muda em coral
.

Foto: Bourton-on-the-Water2 de odddutch
Enviado ao meu orkut por Priscila Prisca

Desculpa


Ana Carolina

Você me diz que eu te olho profundamente
Desculpa
Tudo que vivi foi profundamente.
Eu te ensinei quem sou
e você foi me tirando os espaços entre os abraços,
guarda-me apenas uma fresta.
Eu que sempre fui livre,
não importava o que os outros dissessem.
Até onde posso ir para te resgatar?
Reclama de mim, como se houvesse possibilidade
De eu me inventar de novo.

Desculpa,
Desculpa se te olho profundamente, rente à pele
A ponto de ver seus ancestrais nos seus traços,
A ponto de ver a estrada antes dos teus passos.
Eu não vou separar minhas vitórias dos meus fracassos!
Eu não vou renunciar a mim; nenhuma parte, nenhum pedaço
do meu ser vibrante, errante, sujo, livre, quente.
Eu quero estar viva e permanecer te olhando profundamente!"

DESCULPA - Texto Ana Carolina - Adaptação unindo trechos das obras do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar e do poeta russo Boris Pasternak)
Foto: do filme a Casa do Lago

16 de abr. de 2008

Cantiga

António Botto

Se os meus olhos te incomodam
Quando estou na tua frente
Desde já posso arrancá-los
Para te amar cegamente.

Seja o que for, não me importa,
Mas sei que não é por mim
Que os teus nervos adoecem
E andam sem governo, e assim...
Outra vida, não a minha,
Outro abraço e outro beijo
Te perturba e te desvaira
- Não mintas!, porque eu bem vejo!
Mas, continua, vai indo
Sim, vai até te cansares!,
Para ver o que tu contas
Se algum dia me voltares!

Não te incomodes comigo.
Nas lágrimas também há
Satisfação e conforto;
Nem tudo o que alguém nos mata
Fica perdidou ou é morto.
O coração ressuscita
Muita coisa que julgámos
Esquecida para sempre
Nas sombras da realidade;
O coração tem uma vida
Que pode tudo no mundo,
Chama-se apenas: Saudade!

Com ela é que eu vou vencendo
Este grande desalento
Que apaga os gritos da carne
Em falas do pensamento!
Agarro-me às sensações
Que foram o dia de ontem
- Felicidade sem névoa
Dos nossos dias felizes!
E fico a chorar de raiva
Por não ver bem a mentira
Que há nos silêncios marcados
De tudo quanto me dizes!

Acabou-se. E tu desculpa.
Falei, agora, e não digo
Nunca mais uma palavra
Acerca do nosso amor.
Fica por lá se quiseres
Até mudares ou seres
Numa nova reacção,
Límpida, pura, fremente,
Outra tortura presente
Na minha humilde paixão!
Outro céu, outro destino,
Ou outra condenação!

Foto: Marie... de Jose Duarte

Soneto

António Botto

Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu própio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.


Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!


Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!


E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento


*Aves de Um Parque Real As Canções de António BottoPresença, 1999

Foto: Bicicleta de Vitor NUnes


Aquele senhor que desde a infância me conhece

Reinaldo Ferreira*
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
*Do Livro 6, Um voo cego a nada
Foto: Ainda não de Vitor NUnes

VOZ QUE SE CALA

Florbela Espanca

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro

Amo a hera que entende a voz do muro,
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

Foto: Areias brancas de Hilton Pozza

Sublime é o amor*

Herman Hesse
Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava,
Tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.
O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados
pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.
*Não é título
Foto: Mulheres de João Vasco

Sigmund Freud

Sigmund Freud

"Os cães amam os seus amigos e mordem os seu inimigos; bem diferentes das pessoas, que são incapazes de sentir amor puro e têm sempre que misturar o amor e o ódio nas suas relações."

Foto: Linhaaaaaaaaaa........................... de João Januário

Nietzsche

Friedrich Nietzsche
" Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração."

Foto: Frente a Frente Maternal de Sérgio Conrado

Aimé Césaire


Aimé Césaire


Cultura é identidade. Mais que isso, é tudo o que o homem imaginou para moldar o mundo, para se acomodar nele e torná-lo digno de si próprio. É isso a cultura: tudo o que o homem inventou para tornar a vida vivível e a morte afrontável.



10 de abr. de 2008

Coração


Paulo Leminski


Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.

Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha
E é melhor encher a cara."


Foto: Batismo de Hilton Pozza

Ismália

Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Foto: Tematicas AUTO RETRATO de Roberta Jardim

As Pessoas dos Livros

Fernanda Young
Vejo é azul sereno através das pálébras fechadas,
guardei todas as cartas que li dentro de mim.
Sinto meus pés leves e aquecidos.
Tenho asas e estou voando.
A vida deve ser exata,
podo os excessos da massa que transborda pela fôrma.
Sou uma cozinheira.
Sou uma cientista.
Sou livre para decidir cada próximo segundo da minha vida.
Eu sou azul.

Essa é a minha matéria."


Foto: EQ 2007 #3 de Paulo bizarro
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