2 de fev de 2008

Metade


Osvaldo Montenegro


Que a força do medo que tenho,
Não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito,
Não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda,
Ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada,
Mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida,
E a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas
Como uma prece, nem repetidas com fervor.
Apenas sejam respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem
Inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço,
Mas a outra metade é o que eu calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro,
Seja uma dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso
E a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
Que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso
Que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que eu fui,
E a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais
Do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo,
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
Mesmo que ela não saiba,
E que ninguém a tente complicar,
Porque é preciso simplicidade
Para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia
E a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é AMOR
E a outra metade...TAMBÉM!

Foto: plastic wind de Diaarte

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