16 de set. de 2007

OLHO DE PEIXE

Lenine

Se na cabeça do homem tem um porão
Onde moram o instinto e a repressão
(diz aí)
O que é que tem no sótão?
Permanentemente, preso ao presente
O homem na redoma de vidro
Em raros instantes
De alívio e deleite
Ele descobre o véu
Que esconde o desconhecido, o desconhecido
Como uma tomada à distância
Numa grande angular
É como se nunca tivesse existido dúvida
Existido dúvida
Evidentemente a mente é como um baú
O homem é quem decide
O que nele guardar
Mas a razão prevalece
Impõe seus limites
E ele se permite esquecer de lembrar
Esquecer de lembrar
É como se passasse a vida inteira
Eternizando a miragem
É como o capuz negro
Que cega o falcão selvagem
O falcão selvagem
Se na cabeça do homem tem um porão
Onde moram o instinto e a repressão
(diz aí)
O que é que tem no sótão?



Foto:banho de Fernando gião

A Lucidez Perigosa



Clarice Lispector


Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? sim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.
In "A Descoberta do Mundo" Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1999
Foto: Contralux de Jorge Jacinto

Maior Abandonado

Frejat/ Cazuza

Eu tô perdido
Sem pai nem mãe
Bem na porta da tua casa
Eu tô pedindo a tua
E um pouquinho do braço

Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam, me interessam

Eu tô pedindo a tua mão
Me leve para qualquer lado
Só um pouquinho de proteção
Ao maior abandonado

Teu corpo com amor ou não
Raspas e restos me interessam
Me ame como a um irmão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam

Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam, me interessam

Estou pedindo a tua mão
Me leve para qualquer lado
Só um pouquinho de proteção
Ao maior abandonado

Foto: Ao encontro de Pedro Moreira
Florbela Espanca
Saudades! Sim... talvez... e porque não?...Se o nosso
sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de
luz o coração! Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão! Que tudo isso, Amor, nos
não importe. Se ele deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como pão!
Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais
doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saudade andasse presa a mim! Saudades
Foto: A Casa do Povo de Manuela viola

O Sonho

Clarice Lispector

“Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quiser ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce,
dificuldades para fazê-la forte,
tristeza para fazê-la humana,
e esperança para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem o que fazer das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas..."

Foto:de Rui Bento Alves

Amigos...como não tê-los?

Antoine De Saint-Exupery

"Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, pois cada pessoa é única, e nenhuma substitui outra. Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós. Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito; mas não há os que não levam nada. Há os que deixam muito; mas não há os que não deixam nada. Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente que duas almas não se encontram ao acaso."
Foto: Quando eu for grande ... de Carlos Loff Fonseca

Florbela Espanca

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade; sei lá de quê!"

Foto: Apsara de Isabel Silva

Homem


Caetano Veloso Do disco "Cê").

Não tenho inveja da maternidade
nem da lactação
não tenho inveja da adiposidade
nem da menstruação
só tenho inveja da longevidade
e dos orgasmos múltiplos
Eu sou homem
pele solta sobre o músculo
eu sou homem
pêlo grosso no nariz
não tenho inveja da sagacidade
nem da intuição
não tenho inveja da fidelidade
nem da dissimulação
só tenho inveja da longevidade
e dos orgasmos múltiplos
e dos orgasmos múltiplos
eu sou homem
pele solta sobre o músculo
eu sou homem
pêlo grosso no nariz

Foto: "...enquanto dormias..." de Isidro dias

Não Embaça

* Música: Alzira Espíndola
* Letra: Alice Ruiz

se você marcar bobeira
ou se eu me fizer de tonta
nunca mais eu apareço
nunca mais você me encontra
acho que vou dar bandeira
venha porque já estou pronta
só devia haver começo
a vida passa e não tem volta
venha porque a gente ajeita
sempre existem prós e contras
mas se a gente não encara
nossa vida embolora
chegue que a hora é agora
ou me esqueçae vá embora

Foto: Desalento de Isabel Silva

15 de set. de 2007

Basta Pensar em sentir.....

Fernando Pessoa

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.
Foto:...é outra vez o mar...de Pilar Mendes Dias

14 de set. de 2007

A serenata

* Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural
como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Foto:Hortênsias de João Cerveira Santos

Corridinho

* Adélia Prado in "Adélia Prado - Poesia Reunida", 1991.

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, tudo truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Foto: Relógio de Luís Mendonça

Amor Feinho

* Adélia Prado
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte,
o amor feinho é magro,
doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial;
o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
Foto: Por Miluxa

13 de set. de 2007

* Mário Quintana
As crianças, os poetas
e talvez esses incompreendidos, os loucos,
têm uma memória atávica das coisas.
Por isso julgam alguns que o seu mundo
não é propriamente este.
Ah, nem queiras saber...
Eles estão neste mundo
há muito mais tempo do que
nós.

Foto:Á descoberta de um mundo novo de José Neves

Confissão

* Mário Quintana

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto

Foto:Para lá das névoas.....de Manuela Vaz

Vento novo

Flora Figueiredo

Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenecia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote.

Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenecia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote

Foto: Homens à Beira-Mar de Artur Cardoso

10 de set. de 2007

Somos donos de nossos atos



* Rubem Alves


“Somos donos de nossos atos, mas não somos donos de nossos sentimentos...

Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos...

Podemos prometer atos, não podemos prometer sentimentos...

Atos são pássaros engaiolados,

sentimentos são pássaros em vôo"

Alegre menina

Jorge Amado e Dorival Caymmi

Por que fizeste sultão de mim, alegre menina
Palácio real lhe dei, um trono de pedraria
Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis
Ametista para os dedos, vestidos de diamantes
Escravas para serví-la, um lugar no meu dossel
E a chamei de rainha, e a chamei de rainha
Por que fizeste sultão de mim, alegre menina
Só desejava campina, colher as flores do mato
Só desejava um espelho de vidro prá se mirar
Só desejava do sol calor para bem viver
Só desejava o luar de prata prá repousar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
No baile real levei-a, tu, alegre menina
Vestida de realeza, com princesas conversou
Com doutores praticou, dançou a dança faceira
Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira
Entrou nos braços do rei, rainha mais verdadeira
Foto: Suavidade..de luis mendonça

Lembrete

Flora Figueiredo

Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.

Foto: 2 de Ricardo Cordeiro

Retirada

Flora Figueiredo
Respeite o silêncio
a omissão,
a ausência.
É meu movimento de deserção.
Abandonei o posto,
rompi a corda,
desacreditei de tudo.
Cansei de esperar
que finalmente um dia,
minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo.
Foto: Autumn Arrives...de Baldomero Alves Coelho
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