30 de out. de 2007

À Margem de

Ana Elisa Ribeiro

Não quero ser muito
mais do que isso
me contento
com um Drummond
mal resolvido;
um Bandeira
mais atrevido;
um poeta
não marginal
mas
o próprio bandido.
Foto: Longway to nowhere de Vasco Oliveira

Mulher ao cair da tarde

* Adélia Prado

Ó Deus, não me castigue
se falo minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso, eterno.

Foto: de Maria São Miguel

25 de out. de 2007

Malabaristas do Sinal Vermelho

João Bosco & Francisco Bosco

Daqui de cima da laje
Se vê a cidade
Como quem vê por um vidro
O que escapa da mão
Uns exilados de um lado
Da realidade
Outros reféns sem resgate
a própria tensão
Quando de noite as pupilas
Da pedra dilatam
Os anjos partem armados
Em bondes do mal
Penso naqueles que rezam
E nesses que matam
Deus e o diabo disputam
A terra do sal
Penso nos malabaristas
Do sinal vermelho
Que nos vidros fechados dos carros
Descobrem quem são
Uns, justiceiros, reclamam
O seu quinhão
Outros pagam com a vida
Sua porção
Todos são excluídos
Na grande cidade

Saudade

Patativa do Assaré(Antônio Gonçalves da Silva)

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.

Foto: de Gustavo Fernandes

23 de out. de 2007

Caio Fernando Abreu

Que coisas são essas que me dizes sem dizer,
escondidas atrás do que realmente quer dizer?
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias.
Mas confuso, perdido, sozinho,
Minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti.
Torna-se desesperada, urgente.
Eu já não sei o que faço.
Não sinto nenhuma outra alegria além de ti.
Como pude cair assim nesse fundo poço?
Quando foi que me desequilibrei?
Não quero me afogar: Quero beber tua água.
Não te negues, minha sede é clara.

foto: Pescador Solitário de Mário Galante

Pra que arrepender-se então?

Søren Kierkegaard (Victor Eremita)

Se te casas, arrependes-te;
se não te casa, arrependes-te também;
cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre.
Ri-te das loucuras do mundo e irás arrepender-te;
chora sobre elas, e arrependes-te também;
ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas,
e de ambas as coisas te arrependes;
quer te rias das loucuras do mundo,
quer chores sobre elas irás sempre arrepender-te.
Acredita numa mulher, e irás arrepender-te,
não acredites nela e arrependes-te também;
acredites ou não numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas.
Enforca-te, e arrependes-te;
não te enforques, e na mesma te arrependes.
É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.

Foto: Procurando...de Helena Maria Milheiro

16 de out. de 2007

Que dor de mim me transtorna?

Fernando Pessoa

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?
Foto: algo para... pensar. De Pedro Bento

O que a vida fez de mim?

Fernando Pessoa,

Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!

Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, 'stou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!

Foto: A espera...de Antonio Ramos

6 de out. de 2007

Era Bom

Orquestra Imperial


Era bom quando você chegava
Era bom quando você saía
As histórias que você contava
As canções que eu te refazia

Era bom pintar aquele sexo
consumir nossa energia
viajando pelos 7 cantos
descobrindo a filosofia

Era bom ficar daí calado
pra senti a nossa harmonia
era bom aquele seu abraço
que tava no tom

A vida já não mais andava
foi longe e eu nem previa
não era como era antes
já rolava uma nostalgia.

Não quero mais esse seu barco
do jeito que a coisa ia.
Melhor migrar prum outro canto
E rever a minha profecia.

A firma já tava quebrada
O clima não fortalecia
O samba tava em três por quatro
não era o que me fazia

Agora não é como antes
E hoje o amanhã não sei
É bom ficar desimportante
Pra alguém que eu já desencantei

Era bom
Ai, como era bom!

Foto: de Paulo Bizarro

Luxúria

Isabella Taviani

Dobro os joelhos
Quando você, me pega
Me amassa, me quebra
Me usa demais...

Perco as rédeas
Quando você
Demora, devora, implora
Sempre por mais...

Eu sou navalha
Cortando na carne
Eu sou a boca
Que a língua invade
Sou o desejo
Maldito e bendito
Profano e covarde...

Desfaça assim de mim
Que eu gosto e desgosto
Me dobro, nem lhe cobro
Rapaz!
Ordene, não peça
Muito me interessa
A sua potência
Seu calibre, seu gás...

Sou o encaixe
O lacre violado
E tantas pernas
Por todos os lados
Eu sou o preço
Cobrado e bem pago
Eu sou
Um pecado capital...

Eu quero é derrapar
Nas curvas do seu corpo
Surpreender seus movimentos
Virar o jogo
Quero beber, o que dele
Escorre pela pele
E nunca mais esfriar
Minha febre...

Desfaça assim de mim
Que eu gosto e desgosto
Me dobro, nem lhe cobro
Rapaz!
Ordene, não peça
Muito me interessa
A sua potência
Seu calibre, seu gás...

Sou um encaixe
O lacre violado
E tantas pernas

Por todos os lados
Eu sou o preço
Cobrado e bem pago
Eu sou
Um pecado capital...

Eu quero é derrapar
Nas curvas do seu corpo
Surpreender seus movimentos
Virar o jogo
Quero beber, o que dele
Escorre pela pele
E nunca mais esfriar
Minha febre...


Foto: Deusa do Fogo de Paulo Marques

Companhia

Cazuza / Roberto Frejat / Ezequiel Neves

Se você quiser
Prender o seu amor
Dê liberdade pra ele
Mas nunca lhe diga adeus
Que adeus é tempo demais

Espera
De repente ele chegar
Com tanta história pra contar
Quem sabe pra repetir
O que você quer ouvir de novo

É um desperdício comum
Dois viver vida de um
Querer viver cada emoção eternamente
Querer viver cada emoção eternamente, não

Eu não ligo para estar sozinha
Pois tenho por companhia
Mil corações onde sou rainha

Pois cada homem que amei
Em cada um eu deixei
Uma pista do meu caminho

É um desperdício comum
Dois viver vida de um
Querer viver cada emoção eternamente
Querer viver cada emoção eternamente, não


Foto: Ficou o teu pé na areia de Margarida Araújo




Só se For a Dois

Cazuza / Rogério Meanda

Aos gurus da Índia
Aos judeus da Palestina
Aos índios da América Latina
E aos brancos da África do Sul
O mundo é azul
Qual é a cor do amor?
O meu sangue é negro, branco
Amarelo e vermelho

Aos pernambucanos
E aos cubanos de Miami
Aos americanos russos
Armando seus planos

Ao povo da China
E ao que a história ensina
Aos jogos, aos dados
Que inventaram a humanidade

As possibilidades de felicidade
São egoístas, meu amor
Viver a liberdade, amar de verdade
Só se for a dois
(Só a dois)

Aos filhos de Ghandi
Morrendo de fome
Aos filhos de Cristo
Cada vez mais ricos

O beijo do soldado em sua namorada
Seja pra onde for
Depois da grande noite
Vai esconder a cor das flores
E mostrar a dor(A dor)

Foto: Serenidade de Hugo Félix

Que é que eu sou

Paula Toller

O que é que eu sou?
Eu vim porque?
Pra onde eu vou?
Onde é que eu tava?
Onde é aqui?
Quem me mandou?
Qual é o nome da minha alma?

Acho que sou fruto da imaginação,
a imagem viva da ilusão.
Falso faz de conta do que seja uma mulher
ou uma miragem de um dejavi qualquer

O que é que eu sou?
Eu vim porque?
Pra onde eu vou?
Onde é que eu tava?
Onde é aqui?
Quem me mandou?
Qual é o nome da minha alma?

Acho que sou fruto da imaginação
A imagem viva da ilusão
Falso faz de conta do que seja uma mulher
ou uma miragem de um dejavi qualquer

Você é quem???

Foto: Procurando...de Helena Maria Milheiro

Depois De Ter Você

Adriana Calcanhotto

Depois de ter você,
Pra quê querer saber que horas são?
Se é noite ou faz calor?
Se estamos no verão?
Se o sol virá ou não?
Ou pra quê é que serve uma canção como essa?
Depois de ter você,
Poetas para quê? Os deuses? As dúvidas?
Pra quê amendoeiras pelas ruas?
Para quê servem as ruas?
Depois de ter você...


Foto: de Joel Calheiros

Mas há a vida

Clarice Lispector

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Foto: de Rui Bento Alves

Eu Quero Ir Pra Rua

Paula Toller - letra
Coringa - música

Eu vou à cidade hoje à tarde
Tomar um chá de realidade e aventura
Porque eu quero ir pra rua
Eu quero ir pra rua
Tomar a rua

Não mais
Não mais aquela paúra
De ser encarcerada pra ficar segura

Já cansei de me trancar
Vou me atirar
Já cansei de me prender
Quero aparecer
Aparecer, aparecer

Eu sou da cidade e a cidade é minha
Na contramão do surto de agorafobia
Agora eu quero ir pra rua
Porque eu quero, quero ir pra rua

Levar
A dura de cada dia
Sair da minha laia, chegar na sua

Eu vou à cidade sem compromisso
Tomar um chá, um chá de sumiço no olho da rua
Porque eu quero ir pra rua
Eu só quero ir pra rua
Olhar a rua

Tomar, bem que se podia, ar fresco
Topar Banksy a pintar afresco

Já cansei de me trancar
Vou me atirar
Já cansei de me prender
Quero aparecer
Aparecer, aparecer, desaparecer ...
Foto: Uma luz ao fundo de Carlos Machado

Aninha e suas pedras

Cora Coralina (Outubro, 1981)
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Foto: Flores de primavera de Jose Luis Mendes

Eu era um lobisomem juvenil

Renato Russo

Luz e sentido e palavra -
Palavra é o que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando quando a luz voltou
Não falo como você fala
Mas vejo bem o que você me diz
Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão ?
O que sinto muitas vezes faz sentido
E outras vezes não descubro o motivo
Que me explica porque é que não consigo
Ver sentido no que sinto, o que procuro
O que desejo e o que faz parte do meu mundo
O arco-íris tem sete cores
E fui juiz supremo
Vai, vem embora e volta:
Todos têm
Todos têm suas próprias razões
Qual foi a semente que você plantou ?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito
O que está acontecendo
E daí, de hoje em diante,
Todo dia vai ser o dia mais importante
Se você quiser alguém prá ser só seu
É só não se esquecer: estarei aqui
Não digo nada, espero o vendaval passar
Por enquanto eu não sei - o que você me falou
Me fez rir e pensar
Por que estou preocupado por estar tão preocupado assim ?
Mesmo se eu cantasse todas as canções
Todas as canções
Todas as canções
Todas as canções do mundo
Sou bicho do mato mas,
Se você quiser alguém prá ser só seu
É só não se esquecer: estarei aqui
Ou então não terás jamais a chave do meu coração

Foto: de Rui Bento Alves

5 de out. de 2007

Sonhos

Shakespeare
"Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta
que nem todas, só as de verão.
No fundo isso não tem importância.
O que interessa mesmo não são as noites em si,
são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares,
em todas as épocas do ano,
dormindo ou acordado."

Foto: Riqueza de côr de Manuel Passos

É Tão Gentil e Tão Honesto o Arde

Dante Alighieri

É tão gentil e tão honesto o ar
Da minha Dama, sempre que aparece
E a outrem saúda, que ante ela emudece
Toda língua, e ninguém ousa falar.

Ela se vai sentindo-se louvar,
Vestida de humildade, e até parece
Coisa que lá do Céu à terra desce
A fim de a todos nos maravilhar.

Mostra-se tão graciosa a quem a mira,
Que nos filtra através do olhar no seio,
Um dulçor que só entende quem o prova.

Parece que do seu lábio se mova
Um suspiro suave, de amor cheio,
Que vai dizendo a toda alma: suspira

Foto: s/t de Nuno Pedroso
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