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13 de nov. de 2014

O Apanhador de Desperdícios




Manoel de Barros (Um poeta nunca morre)

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios
.

31 de mar. de 2011

Do livro do Nada


Manoel de Barros

Sou mais a palavra ao ponto de entulho.

Amo arrastar algumas no caco de vidro,
envergá-las pro chão, corrompê-las, -
até que padeçam de mim e me sujem de branco




Foto: Desconheço o autor (se alguém souber)

24 de set. de 2010



Manoel de Barros



"O maior apetite do homem é desejar ser.
Se os olhos vêem com amor o que não é, tem ser."





Ao som de Los Hermanos (Cara Estranho)
Foto: Reflexão da minha querida amiga Ana Cecília

4 de set. de 2010

O menino que carregava água na peneira

Manoel de Barros
Eu tenho um livro sobre águas e
meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio do que o do cheio.
Falava que os vazios são maiorese até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira,
com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviço, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus
despropósitos




Foto: Book_Of_Oblivion_by_nairafee

13 de mai. de 2010

Manoel de Barros


Manoel de Barros


"Para entender nós temos dois caminhos:
o da sensibilidade que é o entendimento do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
mas para incorporar.
Entender é parede;
procure ser árvore."

Foto nao sei a fonte!

30 de jun. de 2009

Manoel de Barros

Manoel de Barros

Deus disse: vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.


Fotos: Thoughts of the things yet to be de Wiseacre


13 de nov. de 2008

Biografia do Orvalho


Manoel de Barros


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou
- eu não aceito.
Não agüento ser apenas UM
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.



Manoel de Barros, “Retrato do Artista Quando Coisa” (1998)

Foto: My vendetta de Eleutera

10 de nov. de 2008

Manoel de Barros



Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrava um título para os seus poemas. Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do Mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)
As antíteses congraçam.



Foto: De Pedro Miguel Costa



30 de ago. de 2008

In Memórias inventadas: a segunda infância"

Manoel de Barros

...que a importância de uma coisa não se mede
com fita métrica nem com balanças
nem barômetros etc.

Que a importância de uma coisa há que ser medida
pelo encantamento que a coisa produz em nós.


Foto: Trilhos sem fim ... de Sandra Marques
Esse trecho foi enviado ao meu orkut pela minha conterrânea Ana Karla

5 de out. de 2007

O Catador

Manoel de Barros

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado, ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro
nessa função de catar pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de
Ser mais do que Ter.

Foto: anda comigo de Rui Vale de Sousa
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