Aqui eu conto meus pontos, conto poesia dos outros, conto músicas que amo, e de vez em quando conto os meus contos!
29 de jul. de 2007
POEMA DA AMANTE
28 de jul. de 2007
SÓ DE SACANAGEM
Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo duramente para educar os meninos mais pobres que eu, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e dos justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva o lápis do coleguinha”, Esse apontador não é seu, minha filhinha”.
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha ouvido falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar. Só de sacanagem!
Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba” e eu vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.
Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? IMORTAL! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
26 de jul. de 2007
Lua Adversa
Essa Mulher
(Joyce e Ana Terra)SE
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
24 de jul. de 2007
A sindrome da incompetência generalizada
A sordidez do que acontece no Brasil é tal, que até criticar o governo só serve para legitimá-lo. Este governo não merece nem uma critica à ‘luz da razão’. Tem de ser analisado como um exame de patologia clinica. Estamos sendo infectados por uma doença histórica. Chama-se a ‘sindrome da incompetência generalizada’. Ou então, “falência multipla dos órgãos públicos”.
Esta doença se espalha a partir do centro do Executivo, do topo da pirâmide de poder. Lula foi a bandeira de bolchevistas e intelectuais durante décadas. Era a esperança do velho populismo e dava um rosto operário concreto aos ideólogos. Controlado pelos comandados de Dirceu, acabou eleito pela habilidade realista de um publicitário. Com a intervenção salvadora de Jefferson, Lula criou sua propria doutrina, que hoje se derrama sobre todos os aparelhos do Estado e se infiltra, pelas alianças, nos outros poderes. As caracteristicas dessa doença que infecta o pais são oriundas de uma vasta cepa de germes históricos e ideológicos. Há uma cepa herdada (resistente a antibióticos) de um autoritarismo com ecos stalinistas, que se cruzou com o germe do sindicalismo oportunista, com o stafilococus do populismo pos-getulista, formando um novo tipo de micróbio que, com a baixa imunidade da democracia representativa, se espalha de forma profusa e letal. Esta doença grave fica muitas vezes dissimulada pela figura de Lula, com seu carisma de simbolo, assim como certas febres podem levar à alucinações enganadoras.
Lula não ama o povo. Ao contrario, quer ser amado por ele. A recente vaia que o ‘magoou’, feriu-o por ele se sentir uma especie de pioneiro da ascençaõ social , que ele diz desejar para todos. Aliás, a crença de que o homem ‘de esquerda’ pensa no ‘bem’ real do povo é mais uma falácia herdada da tradição. Stalin amava o povo? O povo é visto pelos totalitários como uma ‘massa’ (nome usado por eles) a ser moldada como uma maquina humana se reproduzindo sempre, obediente a lideres. O ‘povo’ não é visto como seres para brilhar ou florescer, mas para serem controlados. O recente ‘top top’ do velho Marco Aurelio é a metafora simétrica da vaia: “vão ter de nos engolir!” – a opinião pública e a imprensa, o inimigo maior...
Outra carateristica dessa anomalia é sua espantosa incapacidade administrativa. A ideia de ‘competência’ é vista com desconfiança, inclusive teoricamente, como já foi relatado por intelectuais como Marilena Chaui, porque a competência técnica pode “encobrir um desvio neo-liberal, de direita”. ‘Administrar’ é visto como ato menor, até meio reacionário, pois administrar é manter, preservar, coisa de capitalistas. A incompetencia paralitica deste governo é uma mistura esquisita de restolhos de slogans socialistas com uma adesão custosa e desconfiada ao nosso sub-capitalismo, a não ser nas regras ‘macro’ que FHC deixou, em que Lula, por instinto, não mexe.
Essa ambiguidade paralisa processos e projetos. Nosso Estado quebrado não pode fazer ‘desenvolvimentismo’ e a desconfiança congênita na iniciativa privada impede o crescimento. Só respeitam os bancos e os grotões eleitorais. Isso, misturado a uma vaga idéia de ‘futuro’ que habita a tôsca cabeça dos sindicalistas oportunistas e velhos ‘bolchevos’, cria uma desvalorização do ‘aqui e agora’, como se o ‘presente’ fosse algo desprezivel. Assim, tudo fica parado no ar, nada sai do papel. As promessas e os anuncios bastam; a realização é supérflua.
Sem falar na infecção do baixo aliancismo - o que faz a roubalheira ser vista quase como um mal necessário e inevitavel (‘ôba!’), o que permite a predação da República com a consciencia limpa.
Também a invasão de cargos técnicos por hordas de sindicalistas sem preparo, ignorantes, gera a infecção da burocracia labirintica. A confusão mental e a obsessão paranóica da ‘conspiração’ cria mecanismos de defesa que impedem qualquer eficiência, em nome de uma vigilancia contra os inimigos (nós). Assim, nada anda com o passo eficaz do capitalismo. Em dez meses de caos aéreo, com 354 mortos, só agora se tocaram para o óbvio de medidas anunciadas e que, talvez, nem sejam cumpridas. A isso, claro, some-se o caráter preguiçoso e deslumbrado do Lula, que se declina por todos os escalões do Estado , como uma degeneração de qualquer fé ou iniciativa. Se o comandante berra “dane-se!”, todos depõem suas armas. Alem de não saber o que fazer, Lula não tem saco para nada. Sua atitude de se colocar acima da politica cotidiana desqualifica a propria politica, como sendo coisa menor, o que é uma sopa no mel para corruptos e vagabundos.
Por outro lado, como a economia mundial é favoravel, temos a impressão de saúde e os danos ficam ocultos, e só ficarão claros com a próxima crise. Em vez de ser usada, a economia mundial esta sendo abusada, como uma droga entorpecente. Pela ausência de projetos, resta aos donos atuais do poder manter comprado o apoio das ‘massas’, com bolsas-familia e aumentar gastos públicos em contratações e falsas iniciativas. Tudo que tinha de ser reformado, não o será, pois ‘reforma’ repugna revolucionários.
É isso ai. Tudo que o governo anterior introduziu e que poderia nos fazer avançar foi paralisado. Estamos diante de um grave retrocesso histórico. A tragédia de Congonhas é uma metafora sinistra de nosso momento: o avião estava muito veloz para frear e muito lento para arremeter. Como o Brasil. Não só nada avança, como o que antes funcionava está quebrando. Além disso, os germes cruzados com muitas cepas, fortalecidos por décadas de superstições populistas são muito resistentes. Não há antibiótico conhecido contra estes micróbios. Nenhum, muito menos o PSDB, que morreu, contaminado por si mesmo.
Arnaldo Jabor, jornalista
Fonte: http://www.diarioam.com.br
21 de jul. de 2007
Diz que é você
o dia inteiro diz
e até a noite diz
que é você meu
bom senso, mal-juízo
meu desejo e o que vejo
dizem que é você
meu outro lado esbraveja
veja, tenho certeza
que é você
o sol nasce e se levanta
se deita e de todo jeito diz
que é você
a lua mingua, a lua cresce
e mesmo nova
já está cheia de dizer
que é você
o dia inteiro diz
e até a noite diz
que é você
meu bom senso, mal-juízo
meu desejo e o que vejo
dizem que é você
meu outro lado esbraveja
veja, tenho certeza
que é você
o sol nasce e se levanta
se deita e de todo jeito diz
que é você
tudo o que digo e faço
é só pra disfarçar
e eu só penso e me convenço
que é você
só você insiste em dizer
que não é você
Foto: perdição de João Lopes
Mais Alto
Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem
O mundo nao conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!
Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!
Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!
Foto de Sílvia Antunes
Devolve

Mário Lago
Devolve toda a tranqüilidade toda a felicidade que eu te dei e que perdi devolve todos os sonhos loucos que eu construí aos poucos e te ofereci devolve, eu peço, por favor aquele imenso amor que nos teus braços esqueci. Devolve, que eu te devolvo ainda esta saudade infinda que eu tenho de ti.
Foto: Ai que raivinha de Fátima Silveira retirada do site http://www.1000imagens.com/
Ariano é nosso!

Essa polêmica figura que atrai críticas e elogios, nasceu em Nossa Senhora das Neves (que hoje se chama João Pessoa) em 16 de Junho de 1927, filho de família rica, influente, pai político, foi enviado a Recife, onde se formou advogado, e desde então, escreve! Mesmo que não tivesse optado pela carreira de escritor, Ariano ainda sim seria uma figura admirável! Defensor ferrenho da cultura brasileira, sem no entanto partir para o radicalismo de muitos da sua época, e do militarismo, que achavam que defender a cultura brasileira era impedir o acesso a cultura estrangeira. Ariano sempre acreditou que a qualidade de um livro estava acima de sua origem, leia bons livros brasileiros, aprenda sobre a cultura de seu povo, leia bons livros estrangeiros, conheça o que ocorre além de sua terra natal, poderíamos assim resumir seu pensamento. Muitos brasileiros devem conhecê-lo tão somente pelo filme global O Auto da Compadecida e, pensando tratar-se da adaptação de um romance, desconhecem que esse paraibano maravilhoso é dramaturgo e poeta! Ou seja, a adaptação do filme foi feita a partir de uma peça de teatro e não de um romance. Entre as críticas que ouvi sobre Ariano, lembro de uma letra de música, não sei de qual músico, que fala mais ou menos: “o Ariano ignora o africano”. Isso me deixou profundamente chateada! É necessário lembrar-nos um pouco de história do Brasil para entender Ariano, esse homem cujo pai foi governador do estado da Paraíba, e que ficou órfão aos 9 anos, quando foi morar com a mãe e oito irmãos na pequena vila de Itaperoá. O que inspira Ariano quando monta um personagem como Chicó ou João Grilo (d’O Auto da Compadecida)? Creio que ele remete a sua infância na Paraíba, e descreve com clareza e sinceridade a população local, cuja descendência de holandeses ainda deixa claros traços, literalmente, em seus vivos olhos claros e queimados cabelos loiros. Além de trabalhar com referênciais locais, quem critica Ariano desconhece que o mesmo é membro fundador do Conselho Federal de Cultura (de 1967), e esse foi só um dos títulos e cargos ocupados por ele em seu extenso trabalho na defesa da cultura. Não só do nordeste, mas do país. Infelizmente, a propaganda oficial do governo é de um nordeste negro. E essa sim, ignora a presença de índios e dos colonizadores, o que gerou a formação de um tipo único e maravilhoso, claramente descrito por Suassuna. Um povo sobrevivente, cheio de fé e esperança, tentando sobreviver em uma terra maltratada e com poucos recursos, tão brilhantemente concebidos, que tornam todos seus personagens marcantes. Selton Melo e Matheus Nachtergaele como os impagáveis João Grilo e Chicó, na versão cinematográfica d'O Auto da Compadecida Na poesia, Ariano é melancólico, fala da seca, da morte, do apego à terra, da infância, da morte marcada, com data certa, seja sempre fatídica, por acaso ou provocada. Temas tão nordestinos quanto a sua alma e ainda tão atuais, tenham sido escritos em 1950 ou ontem. O que prova que em cinqüenta anos o Brasil mudou muito, e ao mesmo tempo, mudou pouco, menos do que gostaríamos. E o povo continua forte e com fé, esperando providências, humanas ou divinas. Foi pensando no quanto sua obra é desconhecida – apesar d’O Auto da Compadecida – que resolvi colocar nesse espaço um dos poemas de Ariano que me chamou muito a atenção. Espero que gostem e que tenha despertado a curiosidade de vocês quanto a esse maravilhoso escritor.
Fonte
Me Revelar

Zélia Duncan
Tudo aqui quer me revelar
Minha letra, minha roupa
Meu paladar
O que eu não digo, o que eu afirmo
Onde eu gosto de ficar
Quando amanheço, quando me esqueço
Quando morro de medo do mar
Tudo aqui
Quer me revelar
Unhas roídas
Ausências, visitas
Cores na sala de estar
O que eu procuro
O que eu rejeito
O que eu nunca vou recusar
Tudo em mim
Quer me revelar
Tudo em mim quer me revelar
Meu grito, meu beijo
Meu jeito de ser
O que me preocupa, o que me ajuda
O que eu escolho pra amar
Quando amanheço, quando me esqueço
Quando morro de medo do mar
Delírio
Dá o seu gosto de desejo
Dá os seus olhos de menino
Sem regra ou comprometimento
Sem se importar com que for vendo
Nossa sede de liberdade
Eu quero é dançar da forma que me der
A música expondo seu corpo à vontade
Nas incontáveis formas de se divertir
Dá o seu gosto de desejo
Dá o seu beijo despojado
Seus pensamentos mais intensos
O seu rosto de pecado
Nos gemidos que desordenam
Nas mãos que me fazem entender Adão
A música expondo seu corpo ao delírio
Nas incontáveis formar de se divertir
Foto pintura de Picasso - Le Baiser
Eu Despedi O Meu Patrão

Zeca Baleiro
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego...
Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar nem pela vida mais vazia
Eu despedi o meu patrão...
Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego...
Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar nem pela vida mais vadia
Eu despedi o meu patrão...
Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego...
Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar nem pela vida mais vazia
Eu despedi o meu patrão...
Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego...
Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar nem pela vida mais vadia
Eu despedi o meu patrão...
Não acreditem, no primeiro mundo
Não acreditem, no primeiro mundo
Só acreditem, no seu próprio mundo
Só acreditem, no seu próprio mundo
Seu próprio mundo é o verdadeiro
Meu primeiro mundo, não
Seu próprio mundo é o verdadeiro
Meu primeiro mundo, não
Seu proprio mundo é o verdadeiro
Primeiro mundo, então...
Mande embora, mande embora agora
Mande embora, agora, mande embora o seu patrão
Seu patrão, o seu patrão
Ele não pode pagar o preço
Que vale a tua pobre vida, ó meu
Ó meu irmão...
A Sua
Eu so quero que você saiba
Que estou pensando em você
Agora e sempre mais
Eu só quero que você ouça
A canção que eu fiz pra dizer
Que eu te adoro cada vez mais
E que eu te quero sempre em paz
Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas, te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem
Eu só quero que você caiba
No meu colo
Porque eu te adoro cada vez mais
Eu só quero que você siga
Para onde quiser
Que eu não vou ficar muito atrás
Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas, te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem
Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Mas, te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem
E que eu te quero livre também
*Como o tempo vai e o vento vem
Pensar em você
Barcelona 16
Paula TollerEsse outro parto de partir
E me deixar na beira do cais
Filho sempre meu não mais
Eu não sabia que teria
Que ter você pela segunda vez
Dar a luz a arte e ao mar
E a tudo mais que você sonhar
Solta da minha mão
Leva o seu violão
Dentro do mochilão
Leva também o meu coração
Eu não sabia que existia
Esse outro parto de partir
E me deixar na beira do cais
Filho sempre meu não mais
Eu não sabia que teria
Que ter você pela segunda vez
Dar ao mundo e a tudo que há
E a tudo mais que você criar
Solta da minha mão
Leva o seu violão
Dentro do mochilão
Leva também o meu coração
Quando eu ouvi essa música pela primeira vez me passaram muitas imagens pela minha cabeça. Veio-me a visão do meu filho crescendo, se desprendendo de mim, indo pra o mundo, se libertando. Veio-me à mente também o pensamento de sobre como a minha mãe se sentiu ao ver todos os seus filhos se desgarrando. Eu já havia pensado nisso muitas vezes, é certo, mas essa música aflorou essa vontade de espalhar ao mundo. E Pensei novamente, tantas vezes que eu já havia imaginado, que quando a gente tem um filho é que passa a entender tudo o que os nossos pais sentiram, todos os cuidados que eles tiveram; é que a gente entende a profundidade e a a imensidão desse sentimento. Como a gente passa a ver, entender e sentir tudo diferente. Os medos são diferentes, são ao mesmo tempo mais intensos e mais presentes, e em contradição somos mais destemidos, quase semi-deuses. As dores parecem que agudizam mais, e tantas vezes trocaríamos a que eles sentem pela dor que poderíamos sentir, mesmo sabendo senti-las em favor deles não seria ajudá-los a construir sua propria dor. Na realidade a sensação é de proteção. O tempo todo é como estar com o freio de mão acionado para não cometer erros.
Mesmo assim me sinto mais livre e ao mesmo tempo mais presa, tenho mais momentos felizese também tenho mais dúvidas. Só sei que o olhar dele, o sorriso dele é tudo o que eu tenho de mais importante, de mais sublime, de mais eterno. Me tiram todas as augruras que porventura eu esteja sentindo. Quanta responsabilidade para um filho. E pensar que eu já carreguei e anda carrego também esse peso. As mães e os pais sofrem mais quando têm filhos, mas por outro lado, são bem mais felizes. Eu sou extremamente feliz só por tê-lo, ele é o meu maior presente. Todos os dias eu declaro a ele e incondicionalidade do meu amor. Mas sei que quando ele soltar da minha mão "vai levar o meu coração". Disso eu tenho certeza.
Apresentação
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento
Foto: Pescaria de Paulo Barros
20 de jul. de 2007
Pablo Neruda

Gosto quando te calas
Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
Teu Riso
14.jpg)
Pablo Neruda
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Foto: Arquivo pessoal






