10 de jun. de 2010

Cazuza, como sempre poético

"O que salva a gente é a futilidade" 
(Cazuza)

Foto: Je n'aime pas. de Pedro Cabrral

A TODOS...

Martha Medeiros
A todos trato muito bem
sou cordial, educada, quase sensata,
mas nada me dá mais prazer
do que ser persona non grata
expulsa do paraiso
uma mulher sem juízo, que não se comove
com nada
cruel e refinada
que não merece ir pro céu, uma vilã de novela
mas bela, e até mesmo culta
estranha, com tantos amigos
e amada, bem vestida e respeitada
aqui entre nós
melhor que ser boazinha 
é não poder ser imitada. 
Foto: Elisabeth's Hat  de Elisabethbutterfly

Alê Quites

"Não vou abandonar meu cão na porta do vizinho,
nem deixar as contas vencidas.
não deixarei tickets e vales no bolso da calça jeans,
nem chicle extra para emergências.
não esquecerei calcinhas no varal,
nem os presentes de Natal.
o que deixo já é crescido e preparado.
não deixaria nada para outro refazer ou apenas esquentar.
não partiria em fuga, nem mesmo por frustração.
parto por amor próprio, por paixão pela natureza,
por acreditar que serei mais útil em outro lugar,
por escolha e pela certeza que o novo logo vai começar.
levo boas recordações, deixo saudades, o meu novo endereço
e aquele convite para um encontro em breve.
como uma pipa, leve. Leve!"

Foto: praia no Rn - de Paulo Rgério

1 de jun. de 2010

TERNURA




Vinicius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

Foto: Hong Kong de Ni Francisco

anDO

 

ando com o rabo baixo
entre as patas,
entre as pernas,
entre pintas, unhas e músculos.

ando de salto baixo
de passos longos,
de passos soltos,
de passos de uvas passas.

ando atropelando uns e sou atropelada por outros.

Foto:de Alexandre Bravo

29 de mai. de 2010

Cuide Bem Do Seu Amor



A vida sem freio me leva, me arrasta, me cega
No momento em que eu queria ver
O segundo que antecede o beijo
A palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro
No instante em que desmoronou
Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz

Cuide bem do seu amor
Seja quem for,
Cuide bem do seu amor
Seja quem for...

E cada segundo, cada momento, cada instante
É quase eterno, passa devagar
Se o seu mundo for o mundo inteiro
Sua vida, seu amor, seu lar
Cuide tudo que for verdadeiro
Deixe tudo que não for passar
Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz

Cuide bem do seu amor
Seja quem for,
Cuide bem do seu amor
Seja quem for...

Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz

Cuide bem do seu amor
Seja quem for,
Cuide bem do seu amor
Seja quem for...

Foto: Intimidades... de outro tipo de rui fajardo

* Daquilo que importa

Ademir Antonio Bacca

não importa o prato na mesa,
se ele não te saciar a mais íntima
de todas as fomes

não importa a poesia,
se ela não te abrir as janelas da vida
todos os dias

não importa a ponte,
se ela só te levar
até o outro lado do rio

Não importa a palavra,
se ela só te consolar
no meio da rua

não importa a vida,
se ela é só armadilha

importa sim, o amor
mesmo que,
de vez em quando,
ele mate

*in “Poesia do Brasil – volume 10”
Foto: Catia Cardoso de Pedro Cabral

27 de mai. de 2010

De cara lavada - 177

Martha Medeiros

hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos


coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

Foto:Solidão em Companhia de Rui Matos






25 de mai. de 2010

Que me visite a simplicidade

Úrsula Avner

Quero uma vida simples e pacata
Amanhã não sei se ainda estarei na estrada
Para que o luxo e a ambição ?
Entopem as veias do coração
são filhos rebeldes da ilusão
Quero da vida o ar de montanha
flores do campo para cheirar
o sol poente espelhado no olhar
Da vida eu busco o gesto brando
o olhar contemplativo e manso
o rio que corre sereno
a levar meus cuidados em leito ameno

Foto: Eu sigo os teus passos a caminho do meu coração de Cláudia Azedo

Ondas dentro de mim


Úrsula Avner

Amei , com a delicadeza de quem segura nas mãos
uma bolha de sabão
com o cuidado de quem tece fios de seda,
acalentei a própria vida
Esperei, como quem contempla o sol
após a chuva torrencial
Desejei, como quem almeja a paz
depois que o estrondo jaz
Não contemplo águas paradas
persigo o movimento que há nas estradas
Hoje, não é o fim
encontro ondas dentro de mim
ainda amo, acalento, espero, desejo...
transformo cada momento num ensejo

foto: À espera do verdadeiro amor de Nelson Grilo



24 de mai. de 2010

Neurolinguístíca


Adélia Prado
Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.

Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
 
Foto:http://mundoverdeblog.wordpress.com

17 de mai. de 2010

*Mistério

Adalgisa Nery

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.


De Cantos da Angústia (1948)
fotoÇ De Pedro gomes

16 de mai. de 2010

Fim


Abgar Renault


O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.

O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade,
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.

E dói - não esse gesto ausente, a que se apaga
as flores mais solares, mas uma hora,
- flor de momento numa breve aurora –
hora longínqua, esquiva e para sempre morta,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olhos cegamente vagam. 

Foto: De José Manuel Carvalho

13 de mai. de 2010

Manoel de Barros


Manoel de Barros


"Para entender nós temos dois caminhos:
o da sensibilidade que é o entendimento do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
mas para incorporar.
Entender é parede;
procure ser árvore."

Foto nao sei a fonte!

25 de abr. de 2010

Luís Vaz de Camões

"...Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê."

Foto: A cidade do estudante de Francisco Veiga

Hilda Hilst


Hilda Hilst
( Do Desejo - 1992)

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas
escomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te
ôfrega
Como se fosses morrer colado à
minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do
amanhecer.

Foto: De Luis Mendonça

15 de abr. de 2010

O fraco, quando quer imitar o poderoso, perece.(Fedro)

Foto: Cai neve na SERRA de Carlos Afonso

Martha Medeiros

Martha Medeiros

Desmediocrize sua vida. Procure seus "desaparecidos", resgate seus afetos
Aprenda com quem tiver algo a ensinar, e ensine algo àqueles que estão engessados em suas teses de certo e errado. 
Troque experiências, troque risadas, troque carícias. Não é preciso chegar num momento limite para se dar conta disso. O enfrentamento das pequenas mortes que nos acontecem em vida já é o empurrão necessário. Morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes de partir."



Do amoroso esquecimento

Mário Quintana
Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

(Espelho Mágico)

Foto: Sem título de Babeffe

De tudo ficaram três coisas.

Fernando Sabino

De tudo ficaram três coisas...
A certeza de que estamos começando...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que podemos ser interrompidos
antes de terminar...
Façamos da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro!
Foto: A espera de Luiz Silva
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