24 de set. de 2007

A perfeição


Clarice Lispector

O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, A PERFEIÇÃO.
In "A Descoberta do Mundo" Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1999
Foto: Nacional de Ricardo Alberto de Sousa

23 de set. de 2007

Vaidade

Djavan

Vem
pois já nasce o dia
esqueçamos tudo de ontem
o que eu não faria
para apagar
o que eu disse
de nós dois
o indivíduo exaltado
fala pelos cotovelos
acaba se descontrolando
e desse jeito
é impossível
não ferir
eu, que sempre vi você
sorrindo nos meus braços
não, a me iluminar os lados
mais esquivos
dos meus traços
feriu-me de vaidade
sua verdade dura
você disse
o que era
pra dizer
e eu falei
só loucuras
por favor
volta aí
que eu vou
fazer de tudo
para me redimir
Foto: Deusa do Fogo de Paulo Marques

Miedo

Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de ascender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como un laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara, medo de encarar
Medo de calar a boca, medo de escutar
Medo de passar a perna, medo de cair
Medo de fazer de conta, medo de dormir

Medo de se arrepender, medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá

Miedo... que da miedo del miedo que da

Foto: Adriana Oliveira

22 de set. de 2007

Contradição

Cris Braun, Marcos Cunha e William Magalhães

se eu fizesse coisas que não disse
E se dissesse frases que não penso
E se quisesse o que não faço
Sem cair em contradição

Ficasse em pé ao invés de cair no chão
Quando por um querer qualquer
Me comprometesse
A cruzar a rua na contramão

Ah! Eu não vou dizer que sim
Nem vou fingir que não

Se lamentasse perdas que não tive
E se inventasse fatos que não vi
se negasse o que existe
Sem cair em contradição

Ainda assim eu não teria um minuto de silêncio
Ah! Eu não vou dizer que sim
Nem vou fingir que não

Não, eu não vou me torturar
Mantendo culpas
Os medos vão passar
Vão confirmar a mentira que contei
Pra mim


Foto: Bring me home de danie Camacho

Balada das coisas sem importância

François Villon

Conheço se há moscas no leite,
Conheço pela roupa o homem,
Conheço o tédio e o deleite,
Conheço a fartura e a fome,
Conheço a mulher pelo enfeite,
Conheço o princípio e o fim,
Conheço pela chama o azeite,
Conheço tudo, menos a mim.

Conheço o gibão pela gola,
Conheço o rico pelo anel,
Conheço o fiel pela sacola,
Conheço a monja pelo véu,
Conheço o porco pela tripa,
Conheço o irmão pelo latim,
Conheço o vinho pela pipa,
Conheço tudo, menos a mim.

Conheço a mula e o cavalo,
Conheço o carro e a carreta,
Conheço a galinha e o galo,
Conheço o sino e a sineta,
Conheço a flor pelo talo
Conheço Abel e Caim,
Conheço o pote e o gargalo,
Conheço tudo, menos a mim.

OfertórioPríncipe,
Conheço tudo em suma,
Conheço o branco e o carmim,
E a morte que o fim consuma.
Conheço tudo, menos a mim.
Foto: blazer de Jota Barriga

20 de set. de 2007

Soneto do Desmantelo Azul

Carlos Pena Filho

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Foto: Eu te amo roberta Jardim

Como você escolhe seus amigos?

Loucos e Santos - Oscar Wilde

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril"

Foto:Amigos do peito! de João Castela Cravo

19 de set. de 2007

Somos mesmo SEVERINOS!

João Cabral de Melo Neto
(Morte e Vida Severina)
"- O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias."

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra..."



Foto: Meninos de Rua (I) De Luigi

Somos Todos Severinos!


João Cabral de Melo Neto
(Morte e Vida Severina)



"- Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva:

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma VIDA SEVERINA."

Foto: O Escudo de Talos de Mário Sousa

18 de set. de 2007

Para Viver um Grande Amor

Vinicius de Moraes

Para viver um grande amor , preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois de muitas, poxa ! é de colher... não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro seja lá como for.

Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo ", que porque é só vós quer sempre consigo para iludir o grande amor.

É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja muito apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade para viver um grande amor.

Pois quem trai seu amor por uma vanidade é desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, "il faut " , além de ser fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e judô para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas um bom sujeito; é preciso também ter muito peito peito de remador.

É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas na florista muito mais, muito mais que na modista ! para aprazer o grande amor.

Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, estrogonofes comidinhas para depois do amor.

E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor ?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto pra não morrer de amor.

É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente e esfria um pouco o amor.

Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque ( com mau bebedor nunca se arrisque! ) e ser impermeável ao diz-que-diz-que que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta "selva obscura" e desvairada não se souber achar a bem-amada para viver um grande amor.

Foto: Paragem do autocarro! de José luis Mendes

Crônica das Reticências

Mayara Machado

...Eu amo as reticências! Elas são o início, meio ou fim mais perfeito que se pode dar a uma frase. Trazem expectativa, enigma... Estão sempre lá, preenchendo o espaço daquilo que a gente não sabe, não quer ou prefere simplesmente não dizer. Ou pra mostrar que sabemos exatamente qual(is) palavra(s) caberia(m) sobre aqueles três pontinhos.

Reticências não são ponto final. Não um, mas três! Três pontos, lado a lado; três Marias! Um desfecho que sugere continuidade... ou não. A vírgula divide a frase em quantas partes o lápis (ou caneta) quiser. Os pontos encerram a mesma frase, dão a ela um término, de acordo com a idéia que se quer passar. Mas elas, as reticências, servem para tudo isso.

E como é lindo ver aqueles três pingos entre as letras que nossos olhos traduzem...

Representam o sim, o não... mas, principalmente, o talvez. Podemos usá-las para dizer que amamos uma pessoa, ou que a odiamos, ou, simplesmente, para dizer que estamos com saudades...Se eu chegasse pra você e dissesse que eu... que eu...Pronto! Lá estavam elas. E não importa o que eu ia dizer. Poderia ser uma besteira qualquer, mas você quis saber... e por causa delas!

Os populares “três pontinhos” são um recurso fabuloso da nossa escrita. Pare pra pensar: Muita gente diz que é preciso saber ler nas entrelinhas... pois eu digo que o que é preciso é saber ler nas reticências! Elas valem mais do que mil palavras... ou uma só...!

E quer saber do que mais?...Se você não quer dizer com todas as letras......Eu também não digo...

Foto: Prece de Vitor Nunes

A Hora Íntima

Vinícius de Morais

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...

Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?

Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?

Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?

Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?

Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?

Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...

Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?

Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?

Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?

Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?

Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.

Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?

Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


Foto: Envolve-me... de Margaria Araújo

17 de set. de 2007

De pequenino é que se torce o pepino

Por francinaldo Rafael

Vez por outra os provérbios populares dos tempos da vovó são repetidos aqui e ali, porém, nem sempre colocados em prática. De pequenino é que se torce o pepino, me veio à mente no instante em que presenciei a seguinte cena: em um supermercado da cidade, certa mãe deixava tranqüilamente seu filho brincar com as frutas como se fossem bolas de futebol. Apenas limitava-se a ensinar ao garoto o nome de cada uma delas, ao invés de mostrá-lo que aquilo não era para brincar, além de estar danificando patrimônio alheio. Estou arrependido até agora por não ter alertado aquela mãe acerca dos limites que precisam ser colocados nas crianças. O que hoje é bonitinho aos olhos dos pais, no futuro pode virar dor de cabeça.


Conforme nos ensinam os Benfeitores Espirituais, os pais transmitem aos filhos a aparência física. Já a moral não, visto que são diferentes almas. O corpo deriva do corpo, mas o Espírito não deriva do Espírito. As aparências morais que existem entre pais e filhos se dão pelo fato de serem Espíritos que têm afinidade e foram atraídos pela semelhança nas inclinações. Isso, porém, não isenta os pais do seu compromisso. Grande influência exercem sobre os filhos além de terem como missão desenvolver o Espírito dos filhos pela educação. Constitui-lhes uma tarefa e tornar-se-ão culpados se vierem a falir no seu desempenho.


Apesar da lei das afinidades, acontece em famílias equilibradas e de boa índole nascerem filhos de natureza perversa. Não raramente, Espíritos pouco evoluídos pedem para que lhes sejam dados bons pais, na esperança de que seus conselhos os encaminhem para o bom caminho; a misericórdia divina os concede o que desejam. Os maus filhos são uma provação para os pais. Não podemos esquecer também que há os compromissos do passado que precisam ser resgatados.


Conforme o Evangelho Segundo o Espiritismo, "(...) desde o berço, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz de sua existência anterior; é a estudá-los que é preciso se aplicar; todos os males têm seu princípio no egoísmo e no orgulho: espreitai, pois, os menores sinais que revelam os germes desses vícios, e empenhai-vos em combatê-los, sem esperar que lancem raízes profundas".


Os pais precisam dar-se ao invés de dar coisas, no equivocado pensamento de ofertar facilmente o que não tiveram. Será que todos tem o devido cuidado de saber por onde andam seus adolescentes nas altas horas dos finais de semana? Seria o mais prudente, na missão de educares principais.


Cientes que de pequenino se torce o pepino, muitos pais fizeram tudo o que deviam para o adiantamento moral dos filhos. Se não obtiveram o êxito, não têm censuras a se fazer, e sua consciência pode estar tranqüila; mas ao desgosto muito natural que experimentam do insucesso dos seus esforços, Deus reserva uma imensa consolação, pela certeza que não é senão um atraso, e que lhes será dado acabar em outra existência a obra começada nesta, e que um dia o filho ingrato os recompensará com seu amor.

Fonte: O Mossoroense
Foto: O Gigante 2 de Susana Carrasco

Sempre Clarice, sempre volto a ela!

Clarice Lispector

E eis que em breve nos separaremos
E a verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia
Eu agora sei, eu sou só
Eu e minha liberdade que não sei usar
Mas, eu assumo a minha solidão
Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa
Guardo teu nome em segredo
Preciso de segredos para viver
E eis que depois de uma tarde de quem sou eu
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero
Eis que as três horas da madrugada, acordei e me encontrei
Fui ao encontro de mim, calma, alegre, plenitude sem fulminação
Simplesmente eu sou eu, e você é você
É lindo, é vasto, vai durar
Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida
Mas, por enquanto, olha pra mim e me ama
Não, tu olhas pra ti e te amas
É o que está certo
Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca
E tudo isso ganhei ao deixar de te amar
Escuta! Eu te deixo ser...Deixa-me ser!

foto: Vanessa 8 de Luís Mendonça

Paciência



Lenine e Dudu Falcão

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para(a vida não para não)

Será que é tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para(a vida não para não...a vida não para)

Foto: Bonança de Ricardo Verde Costa

Cantares do Sem Nome e de Partidas

Hilda Hilst

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.
E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Foto: Aprendizes de Pilar Mendes Dias

À Terra de Santa Cruz

Joana D'arc


Quando adormeço
e sei que o meu berço
está nesta terra,
meu peito se encerra
de feliciade, que a minha mocidade
se torna eterna.

Esse vasto céu de anil
segundo nome do Brasil,
e em louvor a santa cruz
onde se pregou Jesus,
deu a ela esse nome
o seu filho mais renome
também julgado na "cruz".


Sabemos que de certo
há nela um lado incerto,
mas, é pra ela que voltamos
quando casados estamos.
como para a mãe se volta ela abre a sua porta
e é lá, que nos deitamos.


Há coisas pra se exaltar
há outras pra se calar,
exalta-se Nestor Antunes,
cala-se os fatos impunes.
porém é meu céu
e assim como um veu
se cobre de queixumes.


Contudo, quando adormeço
e sei que meu berço
está nessa terra,
há uma quimera
de grande alegria
e como magia
me torno eterna.


Foto: Santa Cruz por Socorro Gomes
Homeagem à minha cidade que apesar de tão longe estando, não há desapego dela.

16 de set. de 2007

É de estarrecer

* Música: Itamar Assumpção
* Letra: Alice Ruiz

'
É de estarrecer
estar e ser em inglês
é a mesma coisa
assim como você
pode ser e não estar
você pode estar e não ser
estar e ser
parece a mesma coisa
mas não é
de estarrecer
to be or not to be
here and now
eis a grande questão
ser passado, ser futuro, ser presente
ser humano, estar sendo,
ser amado, ser seguro, ser ausente
ser cigano, estar vivendo
to be happy, to be free
estar em você, ser em mim
to be or not to be
para Shakespeare and me
é de estarrecer
estar e ser em inglês é a mesma coisa
estar e ser
parece a mesma coisa
mas não é
de estarrecer?

Foto: Cascata do Arado de Susana Carrasco

Ou isto ou aquilo

Cecilia Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Foto: Alimentando os pombos de João Cerveira Santos

A Idade Do Céu

Jorge Drexler

Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu

Não somos o que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu

Calma
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu

Não somos mais
Que um punhado de mar
Uma piada de Deus
Ou um capricho do sol
No jardim do céu

Não damos pé
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um grão de sal
No mar do céu

Calma
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
A mesma idade
Que a idade do céu

Foto: de Antonio Tavares
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