10 de out. de 2009

Chove!


José Gomes Ferreira


Chove...

Mas isso que importa!,

se estou aqui abrigado nesta porta

a ouvir a chuva que cai do céu

uma melodia de silêncio

que ninguém mais ouve

senão eu?

Chove...

Mas é do destino

de quem ama

ouvir um violino

até na lama.


Foto: Encantamento II de Ana Cecília

Repouso


Adalgisa Nery

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.


De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)
Foto: de Jonas Lucena

2 de out. de 2009


Composição: (Alex Beaupain/ Versão: Zélia Duncan)


Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?

Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?

Na casca, a vida vem tão doce e tão modesta

Quem se perdeu de si?


Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto

Confesso que perdi, me diz quantos se vão?

Paixões passam por mim, amores que têm pressa

Vão se perder em si


Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias

Seus beijos de mentira não chegam muito longe

Paixões correm por mim, são só suaves febres

Seus beijos mais gentis derretem pela neve

Pra que tocar o amor pelo sabor do gesto

Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?

Amarga essa canção, os dias e o resto

Se perde como um grão


Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto

Te empresto da maçã, vai junto o coração

Esquece o que eu não fiz

Te sirvo o bom da festa

De um jeito mais feliz


Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor

carinho sem querer me cansa e me dói


Se o amor vem pra ficar, faz tudo mais bonito

Me basta ter na mão e o corpo tem razão


foto: Kiss your life... de Isabela Daguer

11 de set. de 2009

Sedução

Adélia Prado

A poesia me pega com sua roda dentada,
e força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia para eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Grande Desejo

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o
cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cântigos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele,vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
pra chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.


Esses poemas de Adélia Prado estão no livro "Bagagem".
Foto: Que neste mar de Malmequeres, nasça o Poema do Tempo... de Fátima Silveira

PROJETO DE PREFÁCIO


Mario Quintana

Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Foto: Não sei de quem é

8 de set. de 2009

Segue Teu Destino



Nuno Júdice

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós próprios.

Suave é viver

só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe

a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.


Foto: A espera de Luiz Silva

6 de ago. de 2009

Rebelião dos Sentimentos

Gilberto Brandão Marcon

Não deveria estar triste,
Mas de fato estava.
Queria não ter ansiedade,
Mas estava ansioso.


Desprezava a autopiedade,
Mas sentia-se fraco para abandoná-la.
Queria mover-se rapidamente,
Mas seus passos estavam inertes.

Tinha o ideal de muito construir,
E a realidade só fazia destruir.
Almejava a explosão de forças,
Mas deprimia-se acuado.

Poderia se entregar ao medo,
Mas se enchia de coragem agressiva.
Caído, fazia-se impiedoso consigo.
Zombava de si, e desafiava-se à luta.

Erguia o punho à indiferença do
tempo,
Rebelava-se contra o determinismo.
Atraía-lhe o afeto da suave chuva,
Mas o
coração queria tempestade.

Rejeitava o mundo externo
E mergulhava na sua intimidade.
Um jogo de realidade e
ilusão,
A verdade lutando com a mentira.

E quem pode dizer o que é certo?
E quem pode afirmar o errado?
Meros servos da moral que somos,
Ainda longe da filiação da ética.

E toda dignidade pode ser encenação.
E todo idealismo, exercício de hipocrisia.
E então possuidores, seremos desprovidos.
Crentes da riqueza, seremos miseráveis.

A dor aguda pode anestesiar.
O marasmo pode tornar-se costume.
A indiferença pode justificar a covardia

E muito querendo, pode-se ter nada

Foto: s/t de Mario Pereira

3 de ago. de 2009

Encantamento

Abgar Renault

Ante o deslumbramento do teu vulto
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em lua a treva em que me oculto.

Estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza,
e, disperso por toda a natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.

É tua vida a minha própria vida,
e trago em mim tua alma adormecida...
Mas, num mistério surdo que me assombra,

Tu és, às minhas mãos, fluida, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra...



Foto: Banho de Luz de Paulo Vieira

26 de jul. de 2009

Confissões

Carolina Salcides

O que me compõe é tudo o que minha alma já viveu.
É tudo o que meu corpo já sentiu.
É o que eu me lembro, sonho, sinto:
Amores, dores... Medos, vícios.
É o que eu crio para mim
E o que eu tiro... Desmorono...
E o que fica é só o verdadeiro:
Componho-me.

O que me habita é tudo o que eu consinto.
Tudo que é intrínseco, eu convivo.
Todos os “eus” me habitam
E todos eles gritam...
Fugas, fogueiras, fuzuês...
Habitam-me todos os sexos...
Crenças, cores, quereres...
E eu não fujo:
Habito-me.

O que eu conheço é o que eu busco
E eu busco só o total...
O que toca fundo, o que tem sentido.
Meio termo, meio passo, meio vivo;
O meio me faz mal.
Quem não se conhece aceita qualquer coisa...
Não conheço o caminho,... Mas hei de seguir...
Não sei do mundo, mas sei de mim:
Conheço-me.

O que eu permito é tudo que me eleva
Se não engrandece, não me acrescenta: desce!
A luz e a sombra me somam, me mostram, me são.
Sou o doce e o veneno, não há o que escolher...
Verso e inverso, yin-yang, eu me completo.
Não me tiro:
Permito-me.

Tudo que minha alma já viveu me compõe
E o que me compõe habita em mim
E o que habita em mim, eu conheço
E o que eu conheço eu permito
E o que eu permito, é.
Eu Sou.
Permito-me!
Foto: de Rui Bento Alves

30 de jun. de 2009

Poema Erótico

Manuel Bandeira

Teu corpo claro e perfeito,
Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio,
é como um véu de noivado...
Teu corpo é dourado...

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume
Teu corpo é a brasa do lume

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
E puro como nas fontes

A água clara que cereja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia da água e da chama...

A todo o momento o vejo...
Teu corpo...a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Foto: 1 de Ricardo Costa

Elegia ao primeiro amigo, fragmentos

Vinícius de Moraes, “Cinco Elegias” (1943)

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de
adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas
delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me
delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo. Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.
(...)

Fonte: não sei de quem é foto

Manoel de Barros

Manoel de Barros

Deus disse: vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.


Fotos: Thoughts of the things yet to be de Wiseacre


4 de mai. de 2009

Para poder morrer

Hilda Hilst
Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.

Porque assim é preciso

Para que tu vivas.


Foto: Ribeira negra de Pedro Moreira

3 de mar. de 2009

Vieste

Ivan Lins/Vitor Martins

Vieste na hora exata com ares de festa
E luas de prata
Vieste com encantos,
Vieste com beijos silvestres
Colhidos pra mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas
Plantadas em mim...
Vieste com a cara e a coragem,
Com malas, viagens,
Pra dentro de mim...
Vieste a hora e a tempo,
Soltando meus barcos
E velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro
Velando por mim...
Vieste de olhos fechados,
Num dia marcado,
Sagrado pra mim
Vieste com a cara e a coragem,
Com malas, viagens,
Pra dentro de mim, meu amor...

Foto: momentos outonais ….de Pedro Casquilho



17 de fev. de 2009

Ternura


Menotti del Picchia(1892-1988)

Se eu te dissesse o meu amor...
(Olha o mar como é vasto! Ouve o mar como geme!)

Se eu te dissesse o meu amor!
(É meu braço que treme ou teu braço que treme?)

Se eu te dissesse o meu amor?
(Olha como o céu esplende! Olha como o sol aquece!)

Se eu te dissesse o meu amor...

Mas teu corpo estremece... A minha alma estremece
como se eu te dissesse
o meu amor...

Foto: Olhares...! de Espirito da Luz

Simplesmente amor


délia Prado

Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero
Por causa dele falo palavras como lanças

Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero
Por causa dele podem entalhar-me:
Sou de pedra sabão.

Alegre ou triste
Amor é a coisa que mais quero.

Foto: Não sei de quem é a autoria

26 de jan. de 2009

Soneto do impossível

Abgar Renault

Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta
das sílabas que beijam tuas asas,
nem a curva em que morre a ardente seta,
nem tanta eternidade em horas rasas.

Não medirás a bêbeda corola
que abriste no final do meu sorriso,
nem tocarás o mel que canta e rola
na insônia sem estradas onde piso.

Não saberás o céu construído a fogo,
que tua jovem chave cerra e empana,
nem os braços de espuma em que me afogo.

Não verão os teu olhos quotidiana
a minha morte de homem embebida
no flanco de ouro e luar da tua vida.



Foto: 001 de Bubbles

Negro Amor


Composição: Bob Dylan / Versão Péricles Cavalcante e Caetano Veloso


Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol
Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada negro amor

A estrada é pra você e o jogo é a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha maluquice em seu lençol
Sob seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada negro amor
E não tem mais nada negro amor

Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores? e agora?
Até o tapete sem você voou
E não tem mais nada negro amor
E não tem mais nada
Negro amor

As pedras do caminho deixe para trás
Esqueça os mortos eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua
Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada negro amor

Os Argonautas




Caetano Veloso (1978)

O barco
meu coração não aguenta
tanta tormenta, alegria
meu coração não contenta
o dia
o marco
meu coração
o porto
não


navegar é preciso
viver
não é preciso


o barco
noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso
o arco
da madrugada
o porto
nada

navegar é preciso
viver
não é preciso

o barco
o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue
o charco
barulho lento
o porto
silêncio

navegar é preciso
viver
não é preciso


Foto: Aguarela no sado...de Jose Canelas

Todo o sentimento

Cristóvão Bastos - Chico Buarque/1987


Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez


Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu

Foto:Se todos pudessemos andar de mãos dadas... de Landa




20 de jan. de 2009

Ausência


Nuno Júdice, in Pedro Lembrando Inês


Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

R E S Í D U O S

(Carlos Drummond de Andrade, em “Rosa do Povo”,Ed. Aquilar, 1964, “Obra Completa”, pág. 163)

“De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
Ficou um pouco.


Ficou um pouco de luz
Captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
De ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pé
De que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço vazio de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
No queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio
Um pouco ficou, um pouco
Nos muros zangados,
Nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
No pires de porcelana,
Dragão partido, flor branca,
De ruga na vossa testa,
Retrato.
Se de tudo fica um pouco,
Mas por que não ficaria
Um pouco de mim? No trem
Que leva ao norte, no barco,
Nos anúncios de jornal,
Um pouco de mim em Londres,
Um pouco de mim algures?
Na consoante?
No poço?

Um pouco fica oscilando
Na embocadura dos rios
E os peixes não o evitam,
Um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco,
Não muito: de uma torneira
Pinga esta gota absurda,
Meio sal e meio álcool,
Salta esta perna de rã,
Este vidro de relógio
Partido em mil esperanças,
Este pescoço de cisne,
Este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco;
De mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
De tudo ficou um pouco;
Vento nas orelhas minhas,
Simplório arroto, gemido
De víscera inconformada,
E minúsculos artefatos:
Campânula, alvéolo, cápsula
De revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
E abafa
O insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
E sob as ondas ritmadas
E sob as nuvens e os ventos
E sob as pontes e sob os túneis
E sob as labaredas e sob o sarcasmo
E sob a gosma e sob o vômito
E sob o soluço, o cárcere, o esquecido
E sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
E sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
E sob tu mesmo e sob teus pés já duros
E sob os gonzos da família e da classe,
Fica sempre um pouco de tudo.”



Foto: Unclaimed (?)

Leve do livro Poemas Completos de Alberto Caeiro


Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)


" Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leva passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
em procuro sabê-lo."


Foto: Flores(não sei de quem é a autoria)

18 de jan. de 2009

Case-se comigo

Liminha & Vanessa da Mata

Case-se comigo
Antes que amanheça
Antes que não pareça tão bom pedido
Antes que eu padeça
Case comigo
Quero dizer pra sempre
Que eu te mereço
Que eu me pareço
Com o seu estilo
E existe um forte pressentimento dizendo
Que eu sem você é como você sem mim
Antes que amanheça, que seja sem fim
Antes que eu acorde e seja um pouco mais assim
Meu príncipe, meu hóspede, meu homem, meu marido
Meu príncipe, meu hóspede, meu marido

Foto: véus e casamentos de Paulo Cesar

Lendo Fernando Pessoa...



Fernando Pessoa


"Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria,
Só porque foi e voou,
E hoje já é outro dia."



Foto: Autumn walk de Francisco Veiga




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