canção das colheitas Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos, Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas. Dá-me tua mão E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido, Te darei por leito a terra amiga E repousarei tua cabeça envelhecida Na relva silenciosa dos campos. Nada te perguntarei, Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.
De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951) Foto: de Jonas Lucena
A poesia me pega com sua roda dentada, e força a escutar imóvel o seu discurso esdrúxulo. Me abraça detrás do muro, levanta a saia para eu ver, amorosa e doida. Acontece a má coisa, eu lhe digo, também sou filho de Deus, me deixa desesperar. Ela responde passando a língua quente em meu pescoço, fala pau pra me acalmar, fala pedra, geometria, se descuida e fica meiga, aproveito pra me safar. Eu corro ela corre mais, eu grito ela grita mais, sete demônios mais forte. Me pega a ponta do pé e vem até na cabeça, fazendo sulcos profundos. É de ferro a roda dentada dela.
Grande Desejo
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia, sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia. Faço comida e como. Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro e atiro os restos. Quando dói, grito ai, quando é bom, fico bruta, as sensibilidades sem governo. Mas tenho meus prantos, claridades atrás do meu estômago humilde e fortíssima voz pra cântigos de festa. Quando escrever o livro com o meu nome e o nome que eu vou pôr nele,vou com ele a uma igreja, a uma lápide, a um descampado, pra chorar, chorar e chorar, requintada e esquisita como uma dama.
Esses poemas de Adélia Prado estão no livro "Bagagem".
Foto: Que neste mar de Malmequeres, nasça o Poema do Tempo... de Fátima Silveira
Sábias agudezas... refinamentos... - não! Nada disso encontrarás aqui. Um poema não é para te distraíres como com essas imagens mutantes de caleidoscópios. Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe Um poema não é também quando paras no fim, porque um verdadeiro poema continua sempre... Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Não deveria estar triste, Mas de fato estava. Queria não ter ansiedade, Mas estava ansioso.
Desprezava a autopiedade, Mas sentia-se fraco para abandoná-la. Queria mover-se rapidamente, Mas seus passos estavam inertes.
Tinha o ideal de muito construir, E a realidade só fazia destruir. Almejava a explosão de forças, Mas deprimia-se acuado.
Poderia se entregar ao medo, Mas se enchia de coragem agressiva. Caído, fazia-se impiedoso consigo. Zombava de si, e desafiava-se à luta.
Erguia o punho à indiferença do tempo, Rebelava-se contra o determinismo. Atraía-lhe o afeto da suave chuva, Mas o coração queria tempestade.
Rejeitava o mundo externo E mergulhava na sua intimidade. Um jogo de realidade e ilusão, A verdade lutando com a mentira.
E quem pode dizer o que é certo? E quem pode afirmar o errado? Meros servos da moral que somos, Ainda longe da filiação da ética.
E toda dignidade pode ser encenação. E todo idealismo, exercício de hipocrisia. E então possuidores, seremos desprovidos. Crentes da riqueza, seremos miseráveis.
A dor aguda pode anestesiar. O marasmo pode tornar-se costume. A indiferença pode justificar a covardia
O que me compõe é tudo o que minha alma já viveu. É tudo o que meu corpo já sentiu. É o que eu me lembro, sonho, sinto: Amores, dores... Medos, vícios. É o que eu crio para mim E o que eu tiro... Desmorono... E o que fica é só o verdadeiro: Componho-me.
O que me habita é tudo o que eu consinto. Tudo que é intrínseco, eu convivo. Todos os “eus” me habitam E todos eles gritam... Fugas, fogueiras, fuzuês... Habitam-me todos os sexos... Crenças, cores, quereres... E eu não fujo: Habito-me.
O que eu conheço é o que eu busco E eu busco só o total... O que toca fundo, o que tem sentido. Meio termo, meio passo, meio vivo; O meio me faz mal. Quem não se conhece aceita qualquer coisa... Não conheço o caminho,... Mas hei de seguir... Não sei do mundo, mas sei de mim: Conheço-me.
O que eu permito é tudo que me eleva Se não engrandece, não me acrescenta: desce! A luz e a sombra me somam, me mostram, me são. Sou o doce e o veneno, não há o que escolher... Verso e inverso, yin-yang, eu me completo. Não me tiro: Permito-me.
Tudo que minha alma já viveu me compõe E o que me compõe habita em mim E o que habita em mim, eu conheço E o que eu conheço eu permito E o que eu permito, é. Eu Sou. Permito-me!
Falarei baixo Para não perturbar tua amiga adormecida Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza. Tudo me merece um olhar. Trago Nos dedos um constante afago para afagar; na boca Um constante beijo para beijar; meus olhos Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres. Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera. Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher Mas com singular delicadeza. Não sou bom Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida Como um lobo. Se não fosse delicado Já não seria mais. Ninguém me injuria Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria. Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo A liberdade alheia; não existe Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza Sou um mártir da delicadeza; sou Um monstro de delicadeza. (...)
Deus disse: vou ajeitar a você um dom: Vou pertencer você para uma árvore. E pertenceu-me. Escuto o perfume dos rios. Sei que a voz das águas tem sotaque azul. Sei botar cílio nos silêncios. Para encontrar o azul eu uso pássaros. Só não desejo cair em sensatez. Não quero a boa razão das coisas. Quero o feitiço das palavras.
Fotos: Thoughts of the things yet to be de Wiseacre
Para poder morrer Guardo insultos e agulhas Entre as sedas do luto. Para poder morrer Desarmo as armadilhas Me estendo entre as paredes Derruídas Para poder morrer Visto as cambraias E apascento os olhos Para novas vidas Para poder morrer apetecida Me cubro de promessas Da memória.
Vieste na hora exata com ares de festa E luas de prata Vieste com encantos, Vieste com beijos silvestres Colhidos pra mim Vieste com a natureza Com as mãos camponesas Plantadas em mim... Vieste com a cara e a coragem, Com malas, viagens, Pra dentro de mim... Vieste a hora e a tempo, Soltando meus barcos E velas ao vento Vieste me dando alento Me olhando por dentro Velando por mim... Vieste de olhos fechados, Num dia marcado, Sagrado pra mim Vieste com a cara e a coragem, Com malas, viagens, Pra dentro de mim, meu amor...
Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta das sílabas que beijam tuas asas, nem a curva em que morre a ardente seta, nem tanta eternidade em horas rasas.
Não medirás a bêbeda corola que abriste no final do meu sorriso, nem tocarás o mel que canta e rola na insônia sem estradas onde piso.
Não saberás o céu construído a fogo, que tua jovem chave cerra e empana, nem os braços de espuma em que me afogo.
Não verão os teu olhos quotidiana a minha morte de homem embebida no flanco de ouro e luar da tua vida.
Composição: Bob Dylan / Versão Péricles Cavalcante e Caetano Veloso
Vá, se mande, junte tudo que você puder levar Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já Seu filho feio e louco ficou só Chorando feito fogo à luz do sol Os alquimistas já estão no corredor E não tem mais nada negro amor
A estrada é pra você e o jogo é a indecência Junte tudo que você conseguiu por coincidência E o pintor de rua que anda só Desenha maluquice em seu lençol Sob seus pés o céu também rachou E não tem mais nada negro amor E não tem mais nada negro amor
Seus marinheiros mareados abandonam o mar Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar Seu namorado já vai dando o fora Levando os cobertores? e agora? Até o tapete sem você voou E não tem mais nada negro amor E não tem mais nada Negro amor
As pedras do caminho deixe para trás Esqueça os mortos eles não levantam mais O vagabundo esmola pela rua Vestindo a mesma roupa que foi sua Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor E não tem mais nada negro amor
Preciso não dormir Até se consumar O tempo Da gente Preciso conduzir Um tempo de te amar Te amando devagar E urgentemente Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez Que recolhe todo o sentimento E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer Até o amor cair Doente Doente Prefiro então partir A tempo de poder A gente se desvencilhar da gente Depois de te perder Te encontro, com certeza Talvez num tempo da delicadeza Onde não diremos nada Nada aconteceu Apenas seguirei, como encantado Ao lado teu
Foto:Se todos pudessemos andar de mãos dadas... de Landa
Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-te de ti, agora que os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói.
(Carlos Drummond de Andrade, em “Rosa do Povo”,Ed. Aquilar, 1964, “Obra Completa”, pág. 163)
“De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa Ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz Captada no chapéu. Nos olhos do rufião De ternura ficou um pouco (muito pouco).
Pouco ficou deste pé De que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço vazio de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo No queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio Um pouco ficou, um pouco Nos muros zangados, Nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo No pires de porcelana, Dragão partido, flor branca, De ruga na vossa testa, Retrato. Se de tudo fica um pouco, Mas por que não ficaria Um pouco de mim? No trem Que leva ao norte, no barco, Nos anúncios de jornal, Um pouco de mim em Londres, Um pouco de mim algures? Na consoante? No poço?
Um pouco fica oscilando Na embocadura dos rios E os peixes não o evitam, Um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco, Não muito: de uma torneira Pinga esta gota absurda, Meio sal e meio álcool, Salta esta perna de rã, Este vidro de relógio Partido em mil esperanças, Este pescoço de cisne, Este segredo infantil... De tudo ficou um pouco; De mim; de ti; de Abelardo. Cabelo na minha manga, De tudo ficou um pouco; Vento nas orelhas minhas, Simplório arroto, gemido De víscera inconformada, E minúsculos artefatos: Campânula, alvéolo, cápsula De revólver...de aspirina. De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco. Oh abre os vidros de loção E abafa O insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco, E sob as ondas ritmadas E sob as nuvens e os ventos E sob as pontes e sob os túneis E sob as labaredas e sob o sarcasmo E sob a gosma e sob o vômito E sob o soluço, o cárcere, o esquecido E sob os espetáculos e sob a morte de escarlate E sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes E sob tu mesmo e sob teus pés já duros E sob os gonzos da família e da classe, Fica sempre um pouco de tudo.”
Case-se comigo Antes que amanheça Antes que não pareça tão bom pedido Antes que eu padeça Case comigo Quero dizer pra sempre Que eu te mereço Que eu me pareço Com o seu estilo E existe um forte pressentimento dizendo Que eu sem você é como você sem mim Antes que amanheça, que seja sem fim Antes que eu acorde e seja um pouco mais assim Meu príncipe, meu hóspede, meu homem, meu marido Meu príncipe, meu hóspede, meu marido
"Eu amo tudo o que foi, Tudo o que já não é, A dor que já me não dói, A antiga e errônea fé, O ontem que dor deixou, O que deixou alegria, Só porque foi e voou, E hoje já é outro dia."
Raios de sol na varanda verde cobrindo o jardim poder sentir a vida espreguiçar com o cheiro da madrugada dama-da-noite, jasmim olhar no céu estrelas pra contar
Ter meus amigos comigo quem amo me amando, sim longe do amor de quem nos finge amar Ver na manhãde umdomingo, meu filho sorrir pra mim depois dormir à sombra de um jatobá
Poucas coisas valem a pena o importante é ter prazer Longe de mim a inveja e a maldade escondidas na vida Hoje estamos nós em cena e não há tempo a perder pois tudo acaba mesmo sempre em despedida
Foto: Friends de Alexandre Bravo
Graciliano Ramos em Memórias do cárcere
"(...) Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de idéias obliteradas."
"Para me refazer e te refazer volto a meu estado de jardim e sombra, fresca realidade, mal existo e se existo é com delicado cuidado. Em redor da sombra faz calor de suor abundante. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando. Estou cheia de acácias balançando amarelas, e eu que mal e mal comecei a minha jornada, começo-a com um senso de tragédia, adivinhando para que oceano perdido vão os meus passos de vida. E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza. Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca."
“No início,cada indivíduo tinha sua cota de destino. A fatalidade, como se diria (…). Triste perspectiva para mim, que amo o improviso e as fendas da existência por onde se infiltram os milagres. É por isso que adoro embaralhar as cartas. Acender a fagulha de um olhar para fazer nascer o amor onde não se esperava”