30 de abr de 2011

Alcoólicas


Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.


Foto: 'O Fascínio da Luz' de Artur Ferrão
ao som de Lenine Lenine - Paciência

Quatro Horizontes




Lenine / Pedro Luís



É QUE NO FIM DA ESTRADA
EU VEJO QUATRO HORIZONTES
Há MAR
Há MONTES DE HISTóRIAS
MISTéRIOS
SEDES DISTINTAS
AQUILO QUE TE SACIA
PRA MIM é UM TRêS POR QUATRO
O QUE RETRATA MEU MEDO
PRA VOCê NãO TEM SEGREDO
O QUE PRA TI é DEGREDO
PRO OUTRO é PORTO SEGURO
SEU FURO DE REPORTAGEM
PRA NóS é MERA BOBAGEM
VIAGEM SEM PARADEIRO
NOS FAZ TãO PERTO E DISTANTES
DEPOIS DA MINHA CHEGADA
SUA PARTIDA, SEU ANTES

ESTRADA DE QUATRO SENTIDOS
ENCRUZILHADA DE DESTINOS
QUANTO MAIS FLOR MAIS MULHER
QUANTO MAIS VELHO MAIS MENINO



Foto: blue_sky_by_prollei-d2xmj7t

28 de abr de 2011

PEQUENO POEMA DIDÁTICO

Mário Quintana



O temo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre…
Todas as horas são horas extremas!




Foto: _time_is_running_out__by_isakichan-d2xmmj1



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