29 de jul de 2007

POEMA DA AMANTE

Adalgisa Nery


Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que está presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda está ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
Desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
(Mundos oscilantes. José Olympio, 1962, RJ

28 de jul de 2007

SÓ DE SACANAGEM

Elisa Lucinda

Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar?

Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo duramente para educar os meninos mais pobres que eu, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e dos justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva o lápis do coleguinha”, Esse apontador não é seu, minha filhinha”.

Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha ouvido falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.

Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar. Só de sacanagem!

Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba” e eu vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.

Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? IMORTAL! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

26 de jul de 2007

Lua Adversa

Cecília Meirelles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,o outro desapareceu...

Essa Mulher

(Joyce e Ana Terra)
De manhã cedo essas senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roua, seca os olhos
Ah. como essas santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão
Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz assim, feliz
De tardezinha essas menina se namora
Se enfeita se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa e tá bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia qualquer dia
Entender de ser feliz
De madrugada essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão
Depois parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.

SE


* Alice Ruiz

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio


daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...

24 de jul de 2007

A sindrome da incompetência generalizada

A sordidez do que acontece no Brasil é tal, que até criticar o governo só serve para legitimá-lo. Este governo não merece nem uma critica à ‘luz da razão’. Tem de ser analisado como um exame de patologia clinica. Estamos sendo infectados por uma doença histórica. Chama-se a ‘sindrome da incompetência generalizada’. Ou então, “falência multipla dos órgãos públicos”.

Esta doença se espalha a partir do centro do Executivo, do topo da pirâmide de poder. Lula foi a bandeira de bolchevistas e intelectuais durante décadas. Era a esperança do velho populismo e dava um rosto operário concreto aos ideólogos. Controlado pelos comandados de Dirceu, acabou eleito pela habilidade realista de um publicitário. Com a intervenção salvadora de Jefferson, Lula criou sua propria doutrina, que hoje se derrama sobre todos os aparelhos do Estado e se infiltra, pelas alianças, nos outros poderes. As caracteristicas dessa doença que infecta o pais são oriundas de uma vasta cepa de germes históricos e ideológicos. Há uma cepa herdada (resistente a antibióticos) de um autoritarismo com ecos stalinistas, que se cruzou com o germe do sindicalismo oportunista, com o stafilococus do populismo pos-getulista, formando um novo tipo de micróbio que, com a baixa imunidade da democracia representativa, se espalha de forma profusa e letal. Esta doença grave fica muitas vezes dissimulada pela figura de Lula, com seu carisma de simbolo, assim como certas febres podem levar à alucinações enganadoras.

Lula não ama o povo. Ao contrario, quer ser amado por ele. A recente vaia que o ‘magoou’, feriu-o por ele se sentir uma especie de pioneiro da ascençaõ social , que ele diz desejar para todos. Aliás, a crença de que o homem ‘de esquerda’ pensa no ‘bem’ real do povo é mais uma falácia herdada da tradição. Stalin amava o povo? O povo é visto pelos totalitários como uma ‘massa’ (nome usado por eles) a ser moldada como uma maquina humana se reproduzindo sempre, obediente a lideres. O ‘povo’ não é visto como seres para brilhar ou florescer, mas para serem controlados. O recente ‘top top’ do velho Marco Aurelio é a metafora simétrica da vaia: “vão ter de nos engolir!” – a opinião pública e a imprensa, o inimigo maior...

Outra carateristica dessa anomalia é sua espantosa incapacidade administrativa. A ideia de ‘competência’ é vista com desconfiança, inclusive teoricamente, como já foi relatado por intelectuais como Marilena Chaui, porque a competência técnica pode “encobrir um desvio neo-liberal, de direita”. ‘Administrar’ é visto como ato menor, até meio reacionário, pois administrar é manter, preservar, coisa de capitalistas. A incompetencia paralitica deste governo é uma mistura esquisita de restolhos de slogans socialistas com uma adesão custosa e desconfiada ao nosso sub-capitalismo, a não ser nas regras ‘macro’ que FHC deixou, em que Lula, por instinto, não mexe.

Essa ambiguidade paralisa processos e projetos. Nosso Estado quebrado não pode fazer ‘desenvolvimentismo’ e a desconfiança congênita na iniciativa privada impede o crescimento. Só respeitam os bancos e os grotões eleitorais. Isso, misturado a uma vaga idéia de ‘futuro’ que habita a tôsca cabeça dos sindicalistas oportunistas e velhos ‘bolchevos’, cria uma desvalorização do ‘aqui e agora’, como se o ‘presente’ fosse algo desprezivel. Assim, tudo fica parado no ar, nada sai do papel. As promessas e os anuncios bastam; a realização é supérflua.
Sem falar na infecção do baixo aliancismo - o que faz a roubalheira ser vista quase como um mal necessário e inevitavel (‘ôba!’), o que permite a predação da República com a consciencia limpa.

Também a invasão de cargos técnicos por hordas de sindicalistas sem preparo, ignorantes, gera a infecção da burocracia labirintica. A confusão mental e a obsessão paranóica da ‘conspiração’ cria mecanismos de defesa que impedem qualquer eficiência, em nome de uma vigilancia contra os inimigos (nós). Assim, nada anda com o passo eficaz do capitalismo. Em dez meses de caos aéreo, com 354 mortos, só agora se tocaram para o óbvio de medidas anunciadas e que, talvez, nem sejam cumpridas. A isso, claro, some-se o caráter preguiçoso e deslumbrado do Lula, que se declina por todos os escalões do Estado , como uma degeneração de qualquer fé ou iniciativa. Se o comandante berra “dane-se!”, todos depõem suas armas. Alem de não saber o que fazer, Lula não tem saco para nada. Sua atitude de se colocar acima da politica cotidiana desqualifica a propria politica, como sendo coisa menor, o que é uma sopa no mel para corruptos e vagabundos.

Por outro lado, como a economia mundial é favoravel, temos a impressão de saúde e os danos ficam ocultos, e só ficarão claros com a próxima crise. Em vez de ser usada, a economia mundial esta sendo abusada, como uma droga entorpecente. Pela ausência de projetos, resta aos donos atuais do poder manter comprado o apoio das ‘massas’, com bolsas-familia e aumentar gastos públicos em contratações e falsas iniciativas. Tudo que tinha de ser reformado, não o será, pois ‘reforma’ repugna revolucionários.

É isso ai. Tudo que o governo anterior introduziu e que poderia nos fazer avançar foi paralisado. Estamos diante de um grave retrocesso histórico. A tragédia de Congonhas é uma metafora sinistra de nosso momento: o avião estava muito veloz para frear e muito lento para arremeter. Como o Brasil. Não só nada avança, como o que antes funcionava está quebrando. Além disso, os germes cruzados com muitas cepas, fortalecidos por décadas de superstições populistas são muito resistentes. Não há antibiótico conhecido contra estes micróbios. Nenhum, muito menos o PSDB, que morreu, contaminado por si mesmo.

Arnaldo Jabor, jornalista

Fonte: http://www.diarioam.com.br

21 de jul de 2007

Diz que é você


* (Alzira Espíndola e Alice Ruiz)

o dia inteiro diz
e até a noite diz
que é você meu
bom senso, mal-juízo
meu desejo e o que vejo
dizem que é você
meu outro lado esbraveja
veja, tenho certeza
que é você
o sol nasce e se levanta
se deita e de todo jeito diz
que é você
a lua mingua, a lua cresce
e mesmo nova
já está cheia de dizer
que é você

o dia inteiro diz
e até a noite diz
que é você
meu bom senso, mal-juízo
meu desejo e o que vejo
dizem que é você
meu outro lado esbraveja
veja, tenho certeza
que é você
o sol nasce e se levanta
se deita e de todo jeito diz
que é você
tudo o que digo e faço
é só pra disfarçar
e eu só penso e me convenço
que é você
só você insiste em dizer
que não é você

Foto: perdição de João Lopes

Mais Alto

Florbela Espanca



Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo nao conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

Foto de Sílvia Antunes

Devolve


Mário Lago

Devolve toda a tranqüilidade toda a felicidade que eu te dei e que perdi devolve todos os sonhos loucos que eu construí aos poucos e te ofereci devolve, eu peço, por favor aquele imenso amor que nos teus braços esqueci. Devolve, que eu te devolvo ainda esta saudade infinda que eu tenho de ti.

Foto: Ai que raivinha de Fátima Silveira retirada do site http://www.1000imagens.com/

Ariano é nosso!



Essa polêmica figura que atrai críticas e elogios, nasceu em Nossa Senhora das Neves (que hoje se chama João Pessoa) em 16 de Junho de 1927, filho de família rica, influente, pai político, foi enviado a Recife, onde se formou advogado, e desde então, escreve! Mesmo que não tivesse optado pela carreira de escritor, Ariano ainda sim seria uma figura admirável! Defensor ferrenho da cultura brasileira, sem no entanto partir para o radicalismo de muitos da sua época, e do militarismo, que achavam que defender a cultura brasileira era impedir o acesso a cultura estrangeira. Ariano sempre acreditou que a qualidade de um livro estava acima de sua origem, leia bons livros brasileiros, aprenda sobre a cultura de seu povo, leia bons livros estrangeiros, conheça o que ocorre além de sua terra natal, poderíamos assim resumir seu pensamento. Muitos brasileiros devem conhecê-lo tão somente pelo filme global O Auto da Compadecida e, pensando tratar-se da adaptação de um romance, desconhecem que esse paraibano maravilhoso é dramaturgo e poeta! Ou seja, a adaptação do filme foi feita a partir de uma peça de teatro e não de um romance. Entre as críticas que ouvi sobre Ariano, lembro de uma letra de música, não sei de qual músico, que fala mais ou menos: “o Ariano ignora o africano”. Isso me deixou profundamente chateada! É necessário lembrar-nos um pouco de história do Brasil para entender Ariano, esse homem cujo pai foi governador do estado da Paraíba, e que ficou órfão aos 9 anos, quando foi morar com a mãe e oito irmãos na pequena vila de Itaperoá. O que inspira Ariano quando monta um personagem como Chicó ou João Grilo (d’O Auto da Compadecida)? Creio que ele remete a sua infância na Paraíba, e descreve com clareza e sinceridade a população local, cuja descendência de holandeses ainda deixa claros traços, literalmente, em seus vivos olhos claros e queimados cabelos loiros. Além de trabalhar com referênciais locais, quem critica Ariano desconhece que o mesmo é membro fundador do Conselho Federal de Cultura (de 1967), e esse foi só um dos títulos e cargos ocupados por ele em seu extenso trabalho na defesa da cultura. Não só do nordeste, mas do país. Infelizmente, a propaganda oficial do governo é de um nordeste negro. E essa sim, ignora a presença de índios e dos colonizadores, o que gerou a formação de um tipo único e maravilhoso, claramente descrito por Suassuna. Um povo sobrevivente, cheio de fé e esperança, tentando sobreviver em uma terra maltratada e com poucos recursos, tão brilhantemente concebidos, que tornam todos seus personagens marcantes. Selton Melo e Matheus Nachtergaele como os impagáveis João Grilo e Chicó, na versão cinematográfica d'O Auto da Compadecida Na poesia, Ariano é melancólico, fala da seca, da morte, do apego à terra, da infância, da morte marcada, com data certa, seja sempre fatídica, por acaso ou provocada. Temas tão nordestinos quanto a sua alma e ainda tão atuais, tenham sido escritos em 1950 ou ontem. O que prova que em cinqüenta anos o Brasil mudou muito, e ao mesmo tempo, mudou pouco, menos do que gostaríamos. E o povo continua forte e com fé, esperando providências, humanas ou divinas. Foi pensando no quanto sua obra é desconhecida – apesar d’O Auto da Compadecida – que resolvi colocar nesse espaço um dos poemas de Ariano que me chamou muito a atenção. Espero que gostem e que tenha despertado a curiosidade de vocês quanto a esse maravilhoso escritor.

Fonte

Me Revelar


Zélia Duncan

Tudo aqui quer me revelar
Minha letra, minha roupa
Meu paladar
O que eu não digo, o que eu afirmo
Onde eu gosto de ficar
Quando amanheço, quando me esqueço
Quando morro de medo do mar

Tudo aqui
Quer me revelar
Unhas roídas
Ausências, visitas
Cores na sala de estar

O que eu procuro
O que eu rejeito
O que eu nunca vou recusar
Tudo em mim
Quer me revelar

Tudo em mim quer me revelar
Meu grito, meu beijo
Meu jeito de ser
O que me preocupa, o que me ajuda
O que eu escolho pra amar
Quando amanheço, quando me esqueço
Quando morro de medo do mar

Delírio



Vanessa Da Mata

Dá o seu gosto de desejo
Dá os seus olhos de menino
Sem regra ou comprometimento
Sem se importar com que for vendo
Nossa sede de liberdade
Eu quero é dançar da forma que me der
A música expondo seu corpo à vontade
Nas incontáveis formas de se divertir
Dá o seu gosto de desejo
Dá o seu beijo despojado
Seus pensamentos mais intensos
O seu rosto de pecado
Nos gemidos que desordenam
Nas mãos que me fazem entender Adão
A música expondo seu corpo ao delírio
Nas incontáveis formar de se divertir

Foto pintura de Picasso - Le Baiser

Eu Despedi O Meu Patrão


Zeca Baleiro
Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego...

Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar nem pela vida mais vazia
Eu despedi o meu patrão...

Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego...

Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar nem pela vida mais vadia
Eu despedi o meu patrão...

Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego...

Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar nem pela vida mais vazia
Eu despedi o meu patrão...

Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego...

Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar nem pela vida mais vadia
Eu despedi o meu patrão...

Não acreditem, no primeiro mundo
Não acreditem, no primeiro mundo
Só acreditem, no seu próprio mundo
Só acreditem, no seu próprio mundo
Seu próprio mundo é o verdadeiro
Meu primeiro mundo, não
Seu próprio mundo é o verdadeiro
Meu primeiro mundo, não
Seu proprio mundo é o verdadeiro
Primeiro mundo, então...

Mande embora, mande embora agora
Mande embora, agora, mande embora o seu patrão
Seu patrão, o seu patrão

Ele não pode pagar o preço
Que vale a tua pobre vida, ó meu
Ó meu irmão...
Foto: arquivo pessoal

A Sua


Eu so quero que você saiba
Que estou pensando em você
Agora e sempre mais
Eu só quero que você ouça
A canção que eu fiz pra dizer
Que eu te adoro cada vez mais
E que eu te quero sempre em paz
Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas, te quero livre também

Como o tempo vai e o vento vem
Eu só quero que você caiba
No meu colo
Porque eu te adoro cada vez mais
Eu só quero que você siga
Para onde quiser
Que eu não vou ficar muito atrás
Tô com sintomas de saudade

Tô pensando em você

E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas, te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem
Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Mas, te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem
E que eu te quero livre também
*Como o tempo vai e o vento vem

Pensar em você


(Chico César)

É só pensar em você
Que muda o dia
Minha alegria dá prá ver
Não dá prá esconder
Nem quero pensar
Se é certo querer
O que vou lhe dizer
Um beijo seu e eu vou só
Pensar em você
Se a chuva cai
E o sol não sai
Penso em você
Vontade de viver mais
E em paz com o mundo
E comigo
E consigo

Ela Disse Que Tem Um Amor


Cordel Do Fogo Encantado

Ela disse que tem um amor
Ela disse que tem a pureza
Ela disse que tem a verdade
No compasso da mãe-natureza

Ela disse que tem um amor
Seja lá como é como for
Ela disse que tem a pureza



Foto: anna_by_sinannasin-d3gh7tr



Barcelona 16

Paula Toller
Eu não sabia que existia
Esse outro parto de partir
E me deixar na beira do cais
Filho sempre meu não mais

Eu não sabia que teria
Que ter você pela segunda vez
Dar a luz a arte e ao mar
E a tudo mais que você sonhar

Solta da minha mão
Leva o seu violão
Dentro do mochilão
Leva também o meu coração

Eu não sabia que existia
Esse outro parto de partir
E me deixar na beira do cais
Filho sempre meu não mais

Eu não sabia que teria
Que ter você pela segunda vez
Dar ao mundo e a tudo que há
E a tudo mais que você criar

Solta da minha mão
Leva o seu violão
Dentro do mochilão
Leva também o meu coração

Quando eu ouvi essa música pela primeira vez me passaram muitas imagens pela minha cabeça. Veio-me a visão do meu filho crescendo, se desprendendo de mim, indo pra o mundo, se libertando. Veio-me à mente também o pensamento de sobre como a minha mãe se sentiu ao ver todos os seus filhos se desgarrando. Eu já havia pensado nisso muitas vezes, é certo, mas essa música aflorou essa vontade de espalhar ao mundo. E Pensei novamente, tantas vezes que eu já havia imaginado, que quando a gente tem um filho é que passa a entender tudo o que os nossos pais sentiram, todos os cuidados que eles tiveram; é que a gente entende a profundidade e a a imensidão desse sentimento. Como a gente passa a ver, entender e sentir tudo diferente. Os medos são diferentes, são ao mesmo tempo mais intensos e mais presentes, e em contradição somos mais destemidos, quase semi-deuses. As dores parecem que agudizam mais, e tantas vezes trocaríamos a que eles sentem pela dor que poderíamos sentir, mesmo sabendo senti-las em favor deles não seria ajudá-los a construir sua propria dor. Na realidade a sensação é de proteção. O tempo todo é como estar com o freio de mão acionado para não cometer erros.
Mesmo assim me sinto mais livre e ao mesmo tempo mais presa, tenho mais momentos felizese também tenho mais dúvidas. Só sei que o olhar dele, o sorriso dele é tudo o que eu tenho de mais importante, de mais sublime, de mais eterno. Me tiram todas as augruras que porventura eu esteja sentindo. Quanta responsabilidade para um filho. E pensar que eu já carreguei e anda carrego também esse peso. As mães e os pais sofrem mais quando têm filhos, mas por outro lado, são bem mais felizes. Eu sou extremamente feliz só por tê-lo, ele é o meu maior presente. Todos os dias eu declaro a ele e incondicionalidade do meu amor. Mas sei que quando ele soltar da minha mão "vai levar o meu coração". Disso eu tenho certeza.

Apresentação

Cecília Meireles
Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento

Foto: Pescaria de Paulo Barros

20 de jul de 2007

Pablo Neruda



Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Teu Riso



Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Foto: Arquivo pessoal

Para meu coração...



Pablo Neruda

Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam minhas asas.
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma.

E em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o sereno às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que cantavas no vento
como os pinheiros e como os hastes.
Como eles és alta e taciturna.
e entristeces prontamente, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Te povoa ecos e vozes nostálgicas.
eu despertei e as vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.


Foto de Paulo Almeida
Fonte:1000imagens

Saudade



(fala do personagem Poeta Afonso Henriques, na novela Fera Ferida escrita por:'''Aguinaldo Silva''', Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn)


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido

Foto de Armando Jorge

19 de jul de 2007

Aquele que aproxima os que sempre estarão

Cecília Meireles
Aquele que aproxima os que sempre estarão
distantes e desunidos
e separa os que pareceriam
para sempre unidos e semelhantes
enxuga meus olhos
no alto da noite de mil direções.
Encostada a seu peito,
contemplo desfigurada
o negro curso da vida
como, um dia,
do alto de uma fortaleza
vi a solidão das pedras milenares
que desciam por suas arruinadas vertentes

Hilda Hilst


Amavisse


Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
(II)

18 de jul de 2007

Nós, mulheres, não temos meio termo no amor"


Anayde Beiriz


O trecho abaixo de uma das cartas de Anayde Beiriz a Heriberto Paiva é bastante revelador da personalidade ao mesmo tempo romântico e ousada da professora paraibana.
A carta é de 4 de julho de 1926.

“(...) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentido, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela atura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade... E eu não quero amar, não quero ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.

Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou pelo poder selético e dignificador da cultura.

Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.

É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa...

...E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.

Adeus. Beija-te longamente, Anayde”


Fonte; http://www.meiotom.art.br/res27.htm em 18 de julho de 2007

FLORBELA ESPANCA


Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!.

ESPELHO






Sylvia Plath

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.


assitam ao filme sobre a vida dela: Sylvia - Paixão Além de Palavras

(tradução de Vinicius Dantas)

Anna Akhmatova


Anna Akhmatova - Considerada a maior poetisa russa do século XX. O conteúdo de suas poesias, no entanto, não agradava o governo russo e o terror stalinista a perseguiu. Em 1921, seu marido, o poeta Gumilev foi assassinado. Na década de 30, o filho, o segundo marido e o poeta e amigo Osip Mandelshtam também foram mortos.

Alguns poemas da Anna

Não, não sou eu, é alguém mais que sofre.
Eu não teria podido. Panos negros de lã cubram
O que se passou,
E levem embora os lampiões...
.............................Noite.



Último Brinde

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

1934


MÚSICA

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.


TREZE VERSOS

E finalmente pronunciaste a palavra
não como quem se ajoelha,
mas como quem escapa da prisão
e vê o sagrado dossel das bétulas
através do arco-íris do pranto involuntário.
E à tua volta cantou o silêncio
e um sol muito puro clareou a escuridão
e o mundo por um instante transformou-se
e estranhamente mudou o sabor do vinho.
E até eu, que fora destinada
da palavra divina a ser a assassina,
calei-me, quase com devoção,
para poder prolongar esse instante abençoado.


À Noite

A música no jardim
tinha dor inexplicável.
Um cheiro de maresia
vinha das ostras no gelo.

Ele disse: "Sou fiel!"
e tocou-me no vestido.
Tão diverso de um abraço
era o toque dessas mãos.

Como quem acaricia
um gato ou um passarinho,
sorria, com os olhos calmos,
sob o ouro das pestanas.

A voz triste dos violinos
cantava, em meio à névoa:
"Dá graças a Deus que enfim
estás a sós com o amado".

16 de jul de 2007

Cora CoraLINDA

Essa homenagem é a Coralina, a Ana Lins, poetisa, Linda, indescritível, inconfundível, difícil de não lembrar, impossível de esquecer.

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Cora Coralina (Outubro, 1981)

14 de jul de 2007

Os Amigos Invisíveis


Fabrício Carpinejar

Os amigos não precisam estar ao lado para justificar a lealdade. Mandar relatórios do que estão fazendo para mostrar preocupação.

Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira. Temos o costume de confundir amizade com onipresença e exigimos que as pessoas estejam sempre por perto, de plantão. Amizade não é dependência, submissão. Não se têm amigos para concordar na íntegra, mas para revisar os rascunhos e duvidar da letra. É independência, é respeito, é pedir uma opinião que não seja igual, uma experiência diferente.

Se o amigo desaparece por semanas, imediatamente se conclui que ele ficou chateado por alguma coisa. Diante de ausências mais longas e severas, cobramos telefonemas e visitas. E já se está falando mal dele por falta de notícias. Logo dele que nunca fez nada de errado!

O que é mais importante: a proximidade física ou afetiva? A proximidade física nem sempre é afetiva. Amigo pode ser um álibi ou cúmplice ou um bajulador ou um oportunista, ambicionando interesses que não o da simples troca e convívio.

Amigo mesmo demora a ser descoberto. É a permanência de seus conselhos e apoio que dirão de sua perenidade.

Amigo mesmo modifica a nossa história, chega a nos combater pela verdade e discernimento, supera condicionamentos e conluios. São capazes de brigar com a gente pelo nosso bem-estar.

Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis na maturidade. Aqueles que não estão perto podem estar dentro. Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades e os valorizo com o frescor de um encontro recente. Não vou mentir a eles ¿vamos nos ligar?¿ num esbarrão de rua. Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.

Eles me ajudaram e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados. Ou passar em casa todo o final de semana e me convidar para ser padrinho de casamento, dos filhos, dos netos, dos bisnetos. Caso encontrá-los, haverá a empatia da primeira vez, a empatia da última vez, a empatia incessante de identificação. Amigos me salvaram da fossa, amigos me salvaram das drogas, amigos me salvaram da inveja, amigos me salvaram da precipitação, amigos me salvaram das brigas, amigos me salvaram de mim.

Os amigos são próprios de fases: da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego, da dança, dos cursos de inglês, da capoeira, da academia, do blog. Significativos em cada etapa de formação. Não estão em nossa frente diariamente, mas estão em nossa personalidade, determinando, de modo imperceptível, as nossas atitudes.

Quantas juras foram feitas em bares a amigos, bêbados e trôpegos? Amigo é o que fica depois da ressaca. É glicose no sangue. A serenidade.

Lia Luft de novo

Tão sutilmente em tantos breves anos
Lya Luft
do livro Mulher no Palco
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Lya Luft

"... acho que a vida é um processo... É como subir uma montanha. Mesmo que no fim não se esteja tão forte fisicamente, a paisagem visualizada é melhor".

Lya Luft

Inimigos

Não deixe de perdoar os seus inimigos - nada os aborrece tanto."

Oscar Wilde.

12 de jul de 2007

O que é Bonito!

Lenine

O que é bonito
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu não sou, não...
Eu gosto é do inacabado
O imperfeito, o estragado que dançou
O que dançou...
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever tudo o que desprezo
E desprezar tudo o que acredito
Eu não quero a gravação, não
Eu quero o grito
Que a gente vai, a gente vai
E fica a hora
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo
Que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede e despedaça

O que é bonito...

9 de jul de 2007

Notas sobre um escândalo


Drama

Eu não entendo mesmo de cinema.Coitada de mim, sempre que gosto de um filme os críticos metem o sarrafo. Por que será? eles têm raiva do mundo é? Ou será que eles querem algo muito extraordinário. Bom eu só sei que enquanto eles se chateiam eu me divirto. Assitam e tirem as suas conclusões

SINOPSE:
Uma jovem professora e uma professora solitária. Uma que se envolve amorosamente com um aluno causando um escândalo entre a comunidad$. O desenrolar do enredo irá trazer à tona comportamentos pertubadores e perturbados A chegada de uma jovem professora alegra uma professora solitária e dominadora, pois logo se tornam amigas. Porém quando a novata se envolve com um de seus alunos, a veterana ameaça revelar seu segredo para todos. Com Judi Dench, Cate Blanchett e Bill Nighy. Recebeu 4 indicações ao Oscar. Elenco Judi Dench (Barbara Covett) Cate Blanchett (Sheba Hart)

Cate Blanchett e Judi Dench são duas das maiores atrizes da atualidade, e disso ninguém tem dúvida. Portanto, quando surgiu a notícia de que elas estariam juntos num mesmo filme, como não deixar as expectativas subiram nas alturas? E NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO, o resultado deste encontro, é uma grata surpresa, porém é inevitável que não provoque algum tipo de decepção. E, mesmo por menor que seja, justifica qualquer lamentação. Mas nunca a ponto de marcar negativamente o trabalho impecável das duas - ambas, felizmente, indicadas ao Oscar.
Primeiro, fui ler o livro. Best seller de Zöe Heller, foi lançado no Brasil com o título ANOTAÇÕES SOBRE UM ESCÂNDALO, pela Editora Record. Aliás, este é um hábito que tenho, sempre procuro pautar minhas leituras em futuros lançamentos cinematográficos. E o livro é... MUITO BOM! Muito bom, mesmo! Conta, com riqueza de detalhes, a história de uma professora que entra numa escola inglesa com a missão de ensinar artes. Ela tem pouca experiência, e acaba criando uma amizade com uma das mais antigas professoras do lugar, uma solteirona que se encanta com a atenção recebida e passa a desenvolver um interesse "especial" pela nova colega. Atração que se transforma em revolta quando descobre o tal "escândalo" do título: a novata está tendo um caso com um dos alunos, um garoto de 15 anos. Na posse deste segredo, passa a manipular a 'amiga' para obter dela tudo que deseja: carinho, dedicação, companheirismo. Porém, num passo em falso, coloca tudo a perder numa tentative fútil de vingança. E, com tudo revelado, terá que agir com cuidado para manter o que havia "conquistado" até então.
A adaptação de Patrick Marber (autor de CLOSER-PERTO DEMAIS), num roteiro indicado ao Oscar, e a direção de Richard Eyre (dos ótimos A BELA DO PALCO e ÍRIS), respeitam rigidamente a estrutura do romance, porém preferem centrar a atenção nos desempenhos irrepreensíveis das atrizes do que na ação discorrida. Ou seja, esta é a maior falha da versão cinematográfica: sua pouca duração (são apenas 90 minutos) para um drama que discorre por quase 400 páginas literárias. Os eventos inevitavelmente terminam por se atropelarem, e o espectador, ainda mais aquele que desconhece a trama previamente, deve ficar com algumas questões mal resolvidas em mente - dados que estão no livro, e não na tela.
Mas, ao assistir a um filme, devemos pensar nele enquanto obra cultural independente, e não ligada a uma outra fonte, seja ela uma peça teatral, um fato real, uma música, uma notícia de jornal ou, claro, um livro. E, enquanto produto cinematográfico, NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO é, sim, acima da média. Só pela trilha sonora de Philip Glass (KUNDUM), também indicada ao Oscar, já valeria o ingresso. Mas o maior mérito é mesmo conferir Dench e Blanchett, no auge de suas formas, dando vida a duas personagens complexas, interessantíssimas e bastante singulares. Cada meio olhar, cada movimento no cabelo, cada roçar de dedos... tudo tem relevância na atuação delas. Na festa do Oscar, Judi enfrentou um peso-pesado (a fabulosa Helen Mirren, por A RAINHA), mas ver Blanchett perder sua estatueta para a impactante, porém melhor cantora do que atriz, Jennifer Hudson (DREAMGIRLS), me remete a quando Catherine Zeta-Jones (CHICAGO) ganhou o Oscar que deveria ter sido de Meryl Streep (ADAPTAÇÃO). São estrelas da vez, que acabam por obscurecer trabalhos superiores, porém tratados de forma mais "convencional". Mas injustiças acontecem, e na história do maior prêmio da indústria cinematográfica mundial elas se repetem com uma freqüência muito maior do que gostaríamos. E não há nada a ser feito a respeito, além de alertas como este.
NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO pode ser um pouco apressado, deixando alguns elementos no ar, mas é um impactante estudo sobre a solidão humana, e como tal deve ser percebido. Com duas fantásticas atrizes à frente do elenco, é daqueles filmes que merecem ser vistos com carinho e muita delicadeza. Pode não ter ganho nenhum dos quatro Oscars a que concorria, mas certamente irá ganhar um espaço importante entre outros iguais, como O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? e o recente AS HORAS.

Decisão

Meu cantinho é muquifo.
Mas o muquifo é de luxo
No começo, e ainda é, era só um fotolog
Mas, resolvi escrever alguma coisa por aqui.
Resolvi depositar meus sons que curto,
Ou melhor, o som dos outros que curto
Os filmes que adoro,
as poesias e poetas que leio.
Assim como os livros.
Na realidade ainda não sei bem ao certo
o que vou deixar aqui.
mas, sei que vou deixar.
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